REPORTAGEM
26/02/2018    Por João Felipe Cândido
Prof. Luiz Marins: Ele faz você pensar
Em entrevista à Viva S/A , o antropólogo, escritor, palestrante e um dos maio- res consultores empresariais do País mostra como podem ser mais simples os temas ligados a carreira, negócios, família e mudança de gerações. Marins aponta os caminhos para obter sucesso pessoal e profissional 
foto: Henrique Vilela

Quase cinco anos se passaram desde o episódio que levou milhares de brasileiros às ruas para protestar. Alguns apontavam os problemas da saúde, outros clamavam pela melhora na educação, muitos ergueram a bandeira da falta de segurança e do aumento do desemprego. Mas, o grande estopim foi o aumento da tarifa do transporte público. Desde então, tem sido cada vez mais raro encontrar um brasileiro contente com os rumos políticos e econômicos do País. A começar pela baixa popularidade do presidente Michel Temer (PMDB), avaliado como ruim ou péssimo por 70% da população, de acordo com pesquisa Datafolha realizada no fim de janeiro. Aos poucos, a economia brasileira tem apontado sinais de uma ligeira recuperação, mesmo assim, grande parte da população permanece descontente. Não é o caso do antropólogo, escritor, palestrante e um dos mais respeitados consultores empresariais do País, Luiz Almeida Marins Filho, 68. Motivos para ser um entusiasta com os rumos do futuro do Brasil ele tem de sobra, e explica porque na entrevista que concedeu à reportagem.

Colunista ininterrupto das páginas de Viva S/A há mais de uma década, Marins faz questão de trabalhar em pé, numa mesa regulável para o seu computador, no escritório com vista deslumbrante que mantém em sua fazenda, localizada em Sorocaba, no interior de São Paulo, onde mora com a esposa e os filhos - todos vizinhos.

Segundo Luiz, cada vez mais estudos são publicados sobre os benefícios de se trabalhar em pé durante boa parte do expediente. “Há muitos anos já se trabalhava em pé no banco Mercantil. Os monges copistas também trabalhavam em pé naquelas estantes dos mosteiros. Ficar muito tempo sentado eleva risco de doenças cardiovasculares e metabólicas; faz mal para a postura e aumenta o estresse”, pondera. Marins também segue, há mais de 20 anos, um ritual diário de exercícios tibetanos, dorme religiosamente oito horas por noite, não abre mão de uma taça de vinho durante o jantar e lê todos os dias antes de dormir. Para relaxar, tem colocado em prática as técnicas da meditação e do mindfulness, que prioriza a plena atenção no aqui e agora.

foto: Henrique Vilela

RAIO-X
Luiz Marins nasceu em Sorocaba, em 1949. É formado em Contabilidade, História, Direito e Ciência Política, cursou pós-graduação em Antropologia na Austrália (Macquarie School of Behavioural Sciences) e no Brasil pela Universidade de São Paulo (USP). Foi professor da Universidade Federal de São Carlos e de outras universidades; detém larga experiência em projetos no setor privado e público, inclusive internacional. É autor de 30 livros. O mais recente é Só não erra quem não faz e outros temas ilustrados para fazer pensar (Editora Integrare). Consultor e conselheiro de empresas e organizações nacionais e internacionais desde 1984, por meio da Anthropos Consulting, a primeira empresa mundial de antropologia empresarial, já atendeu mais de 700 empresas brasileiras. Hoje, apresenta aos domingos o programa Motivação & Sucesso, exibido pela Rede Vida de Televisão; e é comentarista empresarial do Show Business, exibido pela Band. Atua como empresário nos ramos de agrobusiness (Universidade do Cavalo e Fazenda Chaparral), marketing e produtos de formação profissional e motivação, (Commit, Produtos Motivacionais); consultoria, cursos e treinamentos empresariais (Anthropos Consulting e Anthropos Motivation & Success) e varejo (Motivashop).

ENTREVISTA
Professor, qual a sua definição de sucesso?
Em antropologia, o sucesso é você estar bem com você mesmo, ter autoestima equilibrada, ser reconhecido pela sociedade em que você vive como uma pessoa de bem e de boas virtudes. O humano é um ser gregário. Não existe aquela coisa assim: eu estou bem comigo, mas todo mundo me odeia. Aristóteles já dizia que o humano é um ser social. Não adianta a sociedade inteira adorá-lo e você se odiar. Em minha opinião, esse equilíbrio entre você se sentir bem e a sociedade na qual você vive é o que dá o sentido de sucesso. Sucesso não é dinheiro, não é poder, pois, se fosse, não haveria tantos milionários se suicidando, não tinha tanta gente poderosa desesperada na vida. É você se sentir bem. Existe uma coisa para entender a tal da felicidade. Todos nós temos duas curvas. Uma chamada curva da aspiração. Aquilo que aspiramos ser; e uma linha - não é curva - chamada de aptidão, que é aquilo que você pode ser. Quanto mais próximas essas linhas estiverem, mais feliz e bem-sucedida a pessoa estará. Quanto mais distantes, mais infeliz. Existem alguns segredos simples e eficazes para o sucesso pessoal e profissional. O primeiro deles é fazer um check list diariamente. Basta anotar tudo o que você tem de fazer e, à medida em que for concluindo, você vai checando. Isso é válido para tudo e pode resolver o seu relacionamento com as pessoas. Tenha foco, muito foco. O que mata uma empresa não é a falta de missão, mas a inexistência de foco. Um puxa pra lá e o outro puxa pra cá. É o segundo. O terceiro é faça já e não deixe para depois. Pare de postergar e veja o quanto a sua vida muda. O quarto é usar a técnica do queijo suíço. Quando você tiver uma tarefa muito grande para fazer e não puder concluí-la imediatamente, vá executando partes dela, como se tivesse comendo pedaços do queijo. Não precisa fazer tudo de uma vez. Comece aos poucos, mas faça. Quando se der conta, a tarefa já acabou. O quinto é a disciplina, mental e física. É ela que vai fazer você dar conta das quatro tarefas anteriores. 

A universidade de Yale, nos Estados Unidos, divulgou recentemente que o curso mais procurado é o que ensina felicidade. Algo semelhante também aconteceu em Harvard. Por qual motivo os jovens estudantes das universidades mais conceituadas do planeta buscam aprender felicidade?
Porque o grande problema atual é o que chamamos de “meaningless generation”, traduzindo, geração sem sentido. É uma geração que perdeu o sentido da vida. Viver para quê? Trabalhar para quê? Depois da Segunda Guerra Mundial, os soldados que voltaram tiveram muitos filhos, que nasceram entre os anos quarenta e cinquenta. Quando esse pessoal voltou, aconteceu uma explosão populacional no mundo, chamada baby boomer, que é a minha geração. Tivemos uma geração de pais que cultivavam “a paz e o amor”, simbolizada pelo festival de Woodstock, nos EUA, a maior manifestação de paz de todos os tempos, que ocorreu em 1969. Na sequência, veio a geração X. Ela ficou no “meio”. Foi aquela geração preocupada em ganhar dinheiro, ter sucesso; a geração simbolizada pelos homens de Wall Street, que buscavam ficar milionários, fazer carreira, trabalhando como loucos. Uma geração muito preocupada com bens materiais. Daí veio a geração Y, que começa a vida, com o mouse na mão, a questionar os valores da geração anterior. Para que vou querer tanta roupa de grife, carrão e mansão? E agora já existem a geração Z e a Alpha. A Alpha é a nova, de 2010 para cá. Essas gerações, Y e Z, não estão encontrando muito sentido e se questionam: “vou lutar para quê?”. Essa geração quer viajar, ter experiências, para ver se encontra algum sentido nelas. Recebo gente dessa geração desejando, por exemplo, trabalhar na minha fundação para fazer alguma coisa que dê sentido a sua vida. Toda filosofia existe para responder a duas perguntas: o que é a morte e como viver feliz? Só existe para isso. Outro dia me disseram que, em breve, nós não vamos mais morrer. Eu falei: acabou a filosofia. O grande problema de hoje é a falta de sentido na vida. Veja os livros atuais, dos filósofos contemporâneos; esse é o maior questionamento que temos hoje. É a meaningless generation. Vale ressaltar que essa geração mais nova é muito mais ética e honesta do que a minha geração, que é a geração dos baby bommers. Nós cultuamos, na década de 60, o movimento paz e amor. Hoje, quem é que está mandando corrupto para a cadeia? O juiz Sérgio Moro, de quarenta e poucos anos, o Deltan Dallagnol, de trinta e poucos anos. Estão prendendo quem? Nós, de 60, 70 anos. Nós, que éramos os “reformadores do mundo”. Estou falando em termos geracionais. Essa geração mais nova é muito mais ética, tanto que está assustando a nós, os mais velhos. A nossa geração está perdida, porque não acredita mais na honestidade, daí começamos a criticar “que essa geração Y não quer nada com nada”. Não, senhor, ela é ética. Ela quer o que é certo. Não é como nós, que queremos “me gusta la negociación”. Essa é a verdade.

Nas palestras que o senhor realiza em todos os cantos do País, quais, o senhor pode notar, são os maiores dilemas do público?
Não existem palestras iguais. Nesta semana, por exemplo, ministrei palestra na Renault. Foi um tipo de assunto, específico para a realidade da empresa. Depois fiz parte de outra focada no ramo de feiras, futuro econômico e político do Brasil em 2018. Cada palestra é uma palestra. Agora a inquietude que vejo nas pessoas é sobre o que vai acontecer. Às vezes uma preocupação muito abstrata em vez de concreta, porque, para fugir da realidade, a melhor coisa é entrar para o abstracionismo. As pessoas estão perdendo a noção do concreto, do simples, do pé no chão, do dia a dia. E o mundo ficou um pouco assim. “Eu amo a juventude”. Não faço nada por jovem nenhum. “Sou um paladino da humanidade”. Não faço nada por homem nenhum. “Eu amo a infância”. Maltrato todas as crianças que chegam perto de mim. “O reino animal é a minha vida”. E não tenho nenhum gato ou cachorro. 

O senhor costuma comentar que o mundo já é complexo demais e difícil para que ainda busquemos mais formas adicionais de desmotivação, a exemplo de notícias negativas e contato com pessoas pessimistas. O que fazer? A pessoa tem de entender que a vida concreta dela é um instante que ela está vivendo. Por exemplo, um minuto atrás não me pertence, não existe. Eu só sou, filosoficamente, no “hic et nunc”, que em latim significa aqui e agora. A minha inteligência só serve para eu discernir e distinguir. Ela é um farol que ilumina o caminho. Isso já dizia o filósofo Demócrito. Pode notar que tudo o que se refere à inteligência, diz respeito à luz. O Iluminismo é a era da inteligência. Eu digo “fale mais claro”, claro é luz. Vou “esclarecer”, é luz. “Você é brilhante”, brilho é luz. Ela só ilumina. O que me faz caminhar é a vontade. O domínio da vontade. As duas características do ser humano: a inteligência e a vontade. Onde sou livre? E a liberdade, que é o maior atributo do ser humano – não é o atributo da inteligência, que é criadora, mas não é livre. Por que a inteligência não é livre? Já diziam os pré-socráticos: se eu experimentar que fogo queima, não há como minha inteligência me dizer que fogo não queima. Não há essa liberdade. Eu vou morrer dizendo: o fogo queima. Mas, embora eu saiba que fogo queima, se quiser, eu coloco a mão no fogo e deixo queimar. O que é totalmente livre é a vontade. E não a inteligência. É o livre-arbítrio. Eu sei que, se der um tiro no meu ouvido, eu vou morrer. E a minha inteligência não é livre para me dizer: você pode dar um tiro no ouvido que não vai morrer. Mas a minha vontade faz com que eu dê um tiro. A minha inteligência me mostra que só existo aqui e agora, mas não posso só viver aqui e agora. Minha inteligência me diz que tenho de planejar. Que, como o “aqui e agora” vai caminhando, a minha inteligência me diz que tenho de saber, mais ou menos, mesmo que embora eu não tenha certeza de que vá viver, o que eu vou fazer no momento seguinte. A inteligência mostra o caminho e a vontade faz você caminhar. O que eu noto é que setenta por cento do tempo estamos vivendo o passado. Não é aprendendo com o passado, é vivendo o passado. Com sentimentos de culpa. Quando os nossos pais morrem, “devia ter visitado mais”, “devia ter brigado menos”, “devia ter dito isso ou aquilo”. Como eu vivo o aqui e agora? 

É possível encontrar um ponto de equilíbrio entre carreira e vida pessoal?
O equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é um dos maiores desafios da nossa sociedade. O grande problema é que, cada vez mais, com redes sociais, whatsapp, com os meios de você estar totalmente disponível, para o seu patrão e para o seu emprego, perde-se aquela relação de 8h às 18h e ponto final. Isso está desaparecendo. Dependendo muito da cabeça do seu empregador, isso pode ser positivo ou negativo. Pode ser positivo no sentido de ter mais liberdade, de poder trabalhar mais na hora em que você se sente melhor, etc. Mas pode ser negativo se o patrão não o respeita e invade a sua privacidade. Isso tem acontecido em empresas no mundo inteiro. Em nossa empresa, por exemplo, temos algumas medidas simples que colocamos em prática. O expediente termina às 17h, em vez de às 18h. Às sextas-feiras, o expediente se encerra às 16h. No dia do aniversário, a pessoa está dispensada para comemorar com a família. Quando o funcionário precisa estar presente em algum evento na escola do seu filho, seja uma apresentação ou reunião, vale como atestado médico. Sempre parcelamos férias para que o casal possa se programar e viajar junto. Nós procuramos, e as empresas do mundo inteiro estão buscando, transformar o trabalho em uma coisa mais digna, menos pesada. Qual tem sido o resultado? Percebo que a produtividade aumentou. Outra questão importante que sugerimos aos nossos funcionários é que eles durmam oito horas por noite. Eles assinam um acordo em que se comprometem com isso. Estudos científicos apontam que dormir pouco é o mal do século XXI. Daí a pessoa me diz “professor, não dá tempo”. Então você vai ter de colocar em prática aquilo que chamamos de essencial, importante e acidental. Precisamos estabelecer prioridades, e essa é a única coisa que a inteligência pode fazer por nós.

Diante da série de mudanças pelas quais o mundo está passando, qual seria o seu conselho para os jovens?
Primeiro: preencha as “prateleiras do seu cérebro” com informações relevantes. Segundo: dominem a vontade. Dominar vem de “dominus”, que é ser senhor. Dominar a vontade e as emoções é a última moda. É você se controlar. É você ser senhor de você, porque ser senhor de si é ser senhor da sua vontade. É preciso buscar saber onde quer chegar, e ter disciplina. O que é disciplina? O domínio da vontade para percorrer o caminho que me leva aonde quero ir, caso contrário, não vou chegar. O que acontece hoje? Nos primeiros obstáculos desse caminho, a pessoa desiste. Daí vai perdendo o sentido, porque o sentido é direção. E por que isso ocorreu? Por causa da facilidade da vida moderna. Duas coisas ocorreram. Primeiro: famílias muito pequenas, com filhos únicos. As pessoas, os membros, principalmente os filhos, claro, não aprenderam a negociar. Quando você tem uma família grande, você tem de negociar a hora do banho, a coxa do frango e por aí vai. Os filhos únicos não. Tudo esta à disposição deles e nunca tiveram de negociar ou trabalhar a dificuldade da obtenção. E os pais superprotegeram muito os filhos. Tudo foi permitido e dado a essas gerações, Y e Z. Elas não lutaram para conquistar os seus desejos, então, quando deparam com barreiras, acabam desviando. Meu pai era diretor de escola e ele tinha uma teoria de que você não podia ficar um minuto sem ter uma atividade. Com 12 anos, eu estudava inglês, francês, datilografia, violino, espanhol, o que hoje os neurocientistas chamam de encher as prateleiras do cérebro. Todos os meus filhos tocam um instrumento clássico, porque música é uma linguagem universal. Se eu sou inglês, você sueca, você dinamarquesa, ele americano, não se fala bom dia um para o outro, mas a gente toca as sete notas e os 14 sons do pentagrama. E entendemos. Também sugiro aprender espanhol, porque é uma coisa lógica. Habilidades manuais também são muito importantes. Meus filhos, por exemplo, fizeram aulas de cerâmica, exatamente com o propósito de desenvolver a habilidade manual. Por fim, recomendo aulas de teatro. Meus filhos participaram e faz toda diferença no desenvolvimento. 

Professor, o que o senhor acha dos workaholics?
O dia tem 24 horas para todos nós. Para o Papa, para o Trump, para o Barack Obama, para o Putim e para mim. É impossível que nós, mesmo sendo presidentes de empresa, sejamos as pessoas mais ocupadas do mundo, porque são as mesmas 24 horas para todos. O problema é a gestão do tempo. A gestão do tempo não é física. É da sua cabeça. É uma gestão das suas prioridades. O que é essencial para você? Tem um livro que é maravilhoso, best-seller nos EUA, chamado Essencialismo (Sextante). O que é essencial para você? Você é workaholic por quê? Porque não consegue delegar; é centralizador, porque se acha muito importante, quer abraçar o mundo. O que acontece em muitos casos hoje, do ponto de vista da antropologia, é que “briguei com a minha mulher”, então, eu quero tudo, menos ir para casa. Eu sou o diretor. Assim, eu fico na empresa até às 19, 20, 21, 22 horas, e a secretária ali, os gerentes ali. Todos se perguntam: ”O homem não vai embora?”. Ninguém pode ir embora enquanto ele não for. Pode, mas não deve. Só que, no dia seguinte, o funcionário precisa estar na empresa às oito horas. Já o dono, diretor, workaholic, dorme até mais tarde. Isso não é justo! Na verdade, esses workaholics não têm noção. São pessoas desequilibradas, que eu acho sociopatas. Não têm o controle do que é essencial na vida deles. Minha dica é: viva adiantado, e não atrasado. É incrível o que eu vejo de pessoas estressadas, com celular o tempo todo nas mãos, correndo no trânsito, correndo riscos e colocando a vida de outras pessoas em risco. O motivo? Estão sempre atrasadas. Pare com isso, viva adiantado. Quando me dizem “mas não tenho tempo”. Claro que tem! Você não é a única pessoa ocupada do mundo. Organize-se, tenha disciplina, viva adiantado, chegue antes aos seus compromissos. Viva adiantado e veja a surpresa que terá com você e como vai surpreender os outros com a sua calma, com a sua tranquilidade e com o seu equilíbrio.

Quem deve vencer a corrida presidencial este ano?
Temos até o dia cinco de agosto para o registro das candidaturas, portanto, até lá, ninguém sabe quem será de fato candidato. Temos alguns nomes que já anunciaram que estarão na disputa. Devido à lei da Ficha Limpa, creio que dificilmente o Lula estará na corrida presidencial. Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia de 2002, pai da economia comportamental, ganhou o Prêmio porque diz o seguinte: é impossível, improvável, sob qualquer aspecto, científico ou não, fazer qualquer previsão sobre eventos que não têm regularidade. Assim, diz ele textualmente, querer descobrir o resultado futuro de bolsa de valores, de torneios esportivos, ou de eleições, só vai depender da coragem de quem fizer o chute e da sorte, se ele tiver acertado, porque é impossível. Creio que o governo Temer ainda vai promover muitas reformas, que são necessárias para fazer o Brasil caminhar mais. A re- forma da Previdência, na minha opinião, sai este ano. 

Mas o cenário anda bem conturbado…
Vou explicar por que. Não tem jeito de não fazer a reforma da Previdência. E quem diz que não precisa fazer, que isso tudo é uma farsa, que a Previdência não tem déficit, é porque não entende a diferença entre o regime de caixa e o regime de competência. São duas situações diferentes. O déficit da Previdência em 2017 aumentou 18,5% e chegou ao recorde de 268,8 bilhões de reais; foi equivalente a todo o investimento do governo feito no País, mais o custeio; ou seja, se continuar assim, o Brasil quebra. Se a reforma não for aprovada no governo Temer, o próximo presidente vai ser obrigado a prosseguir com ela, não tem discussão. Essa briga da reforma da Previdência não me preocupa, porque terá de ser feita. 

Mas o Bolsonaro se diz contrário à reforma…
Isso é conversa. Ou o Brasil quebra ou “vira uma Venezuela”. E o Brasil é muito grande para quebrar. Só para termos noção da dimensão, hoje, mesmo com toda crise econômica dos últimos anos, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), nós somos a nona economia do mundo. 

Qual é o cenário econômico para o Brasil nos próximos anos?
Creio que bastante positivo. O mundo está muito complicado. Ele está dividido em dois grandes blocos: mercados maduros e mercados emergentes. Mercado maduro é aquele em que o aumento do consumo é equivalente ao incremento vegetativo da população. Se a população daquele país cresce, o consumo aumenta; se a população não crescer, o consumo não aumenta, porque quem mora lá já consome no seu limite. Assim é o consumo de biscoito, por exemplo, na Inglaterra, que está estagnado há anos. Porque não tem como fazer o inglês comer um biscoito a mais do que ele já come e a população não cresce. O mesmo ocorre com a população da França, que nos últimos dez anos cresceu pouco. Já na Alemanha tem diminuído. Por esta razão o primeiro mundo, em que estão esses países de mercado maduro, são os chamados G6. Não é G7 porque o sétimo seria o Canadá, mas o país é muito pequeno economicamente. Então, são os EUA, a Europa tradicional (Alemanha, França, Inglaterra, Itália) e Japão. Note que, nesses países de mercado maduro, a população não cresce, só que há uma discussão neles: a imigração. As empresas pressionam o governo para abrir a imigração para ter a quem vender. A Espanha passou de quarenta para 44 milhões de habitantes, quatro milhões de imigrantes. Por isso existe essa luta na Europa. Gente protegendo a imigração e gente contra. Quem protege a imigração é quem trabalha economicamente falando: é muito ”bonito” eu não querer a imigração, mas quem vai comprar? Quem vai pintar a parede? Quem vai cuidar do jardim? Se você tirar os mexicanos dos EUA, quem vai cuidar daqueles jardins maravilhosos, por exemplo? Algum americano vai fazer isso? Esse é um mercado maduro. Esses mercados maduros são onde estão as empresas maduras, os grandes investidores do mundo. Toyota, Mitsubishi, Nissan, no Japão, para falar só de automobilismo. BMW, Mercedes-Benz, Fiat, tudo na Europa, ou americana, Microsoft, Amazon e por aí vai. Essas empresas necessitam desesperadamente de mercado emergente, porque precisam crescer, para poder dar retorno ao acionista, porque não têm mais dono, estão na bolsa. A velhinha de Nebrasca aplicou lá mil dólares, ela quer mil e cem e não 890 dólares. Para isso, precisa de mercados emergentes.

Quais são os mercados emergentes?
Antigamente - já não é mais tão antigamente -, falava-se em Brasil, Rússia, Índia e China (Brics). Em uma homenagem à África, que vai ser o continente da segunda metade do século XXI, colocaram um S, que é África do Sul. Só que hoje existe um problema: a Nigéria é maior que a África do Sul. Daqui a quarenta anos, o país mais populoso do mundo vai ser a Índia, e não a China, por causa da política do segundo filho. Em segundo lugar, a China. Em terceiro lugar, a Nigéria. O PIB da Nigéria já é maior que o PIB da África do Sul. E os russos estão investindo lá. Os chineses estão investindo na África. Lá será a maravilha da segunda metade do século XXI. Hoje não se fala mais em Brics. Por quê? Porque a Rússia perdeu a importância devido à matriz energética, pois 93% da Rússia são petróleo e gás. É energia. E por que ela é tão importante? Porque a Europa sempre dependeu da energia da Rússia. Por isso a Ucrânia é tão importante. A Ucrânia está entre a Rússia e a Europa, onde passam os gasodutos que alimentam a Europa. Hoje, 43% da energia elétrica doméstica da Alemanha já é fotovoltáica (solar). E a Rússia perde a importância. Agora não se fala mais em Brics, fala-se em Brasil, Índia, Indonésia, Turquia e China. O futuro vai ser aqui. O único país ocidental deste grupo é o Brasil, assim como nos Brics também era. Note que esses que citei são o G6, não conseguem sequer ler o alfabeto, nem da Índia, nem da Indonésia, nem da Turquia, nem da China. O único país ocidental, possível, fácil de se trabalhar é o Brasil. E além de tudo isso, aqui no Brasil entende-se facilmente. Eu faço parte de vários conselhos de empresas. Todos esses países têm problemas sérios com fundamentalismo. Todos. Veja a Índia, onde existem 1.652 dialetos, 325 idiomas, sendo 25 idiomas oficiais. Quando alguém fala “eu conheço a Índia”, eu pergunto: “qual Índia você conhece?”. Por que estamos salvos, na minha opinião? Porque o mundo vai passar de sete para nove bilhões de habitantes nos próximos 45 anos. Essa população vai ter duas características. Ela é mais urbana, porque o êxodo rural está acontecendo O Brasil está “condenado” a ser o produtor de alimento do mundo. Não tem alternativa muito na África. O Oriente Médio e a Ásia terão o dobro da renda média que tem hoje a população mundial. Porque a distribuição de renda é uma forte pressão para aumentar o consumo. Para alimentar essa população, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o mundo vai ter de produzir cinquenta por cento a mais de grãos e dobrar a produção de carnes. Porque o consumo de carne não está diminuindo nem vai diminuir. Isso é impossível de acontecer, segundo a FAO. Por quê? Porque a produtividade por hectare está chegando ao seu limite.

Mesmo no Brasil?
Vou explicar. Nós plantávamos soja e tirávamos 35 sacas por hectare de soja. Com o auxílio da tecnologia, foi para 64 sacas por hectare. A campeã brasileira, que é Ponta Grossa, no Paraná, já chegou a produzir 141 sacas por hectare, mas foi um caso isolado, que envolve a qualidade do solo. A média é 60 sacas de soja por hectare. Por mais tecnologia que se tenha, não conseguiremos chegar à produção de duzentas sacas por hectare. Haverá necessidade de ter mais terra. Quarenta por cento desse aumento, daqueles cinquenta por cento a mais de grãos, vão ser de produtividade, ou seja, na mesma terra, produzir mais. Mas, sessenta por cento serão em novas terras. E, no mundo, onde tem terra, não tem água. A África possui um problema sério que chama the african curse, tradução de a maldição africana. Ou seja, lá, terra e água não correm no mesmo lugar. Um problema geopolítico complicado. Voltemos ao Brasil, que tem quatrocentos milhões de hectares de terras agriculturáveis, em inglês chama arable land, ou seja, arável, segundo o governo brasileiro e segundo a ONU. Sem levar em consideração nenhuma área protegida, de acordo com a legislação brasileira, a exemplo da Amazônia. O Brasil tem mais área agriculturável que os EUA e a Rússia juntos. O Brasil, com mais de duzentos milhões de habitantes, tem mais água renovável por ano que a Ásia inteira, com quatro bilhões de pessoas. E não tem nada a ver com os rios da Amazônia. Estamos contabilizando apenas a água subterrânea. Dos dez maiores aquíferos, que é água pura subterrânea, os dois maiores são no Brasil. O maior aquífero do mundo se chama Alter do Chão, localizado em Belém, no Pará. O segundo é o Guarani, que conhecemos, passa embaixo de nós, que pega essa parte do sul do Brasil, um pedaço do Paraguai, um pedaço da Argentina, e mais o Uruguai. O Alter do Chão é menor geograficamente, mas tem o dobro da água do Guarani. Só o Alter do Chão tem água disponível para alimentar o mundo inteiro por duzentose cinquenta anos. O Brasil está “condenado” a ser o produtor de alimento do mundo. Não tem alternativa. E hoje nós somos campeões da “porteira pra dentro”. A agropecuária tem sustentado a nossa economia. E o mundo tem trilhões de dólares para investir e não sabe onde investir, porque o Brasil se fechou nestes últimos anos para receber investimentos por causa de questões políticas. [Marins faz uma pausa e chama a equipe de reportagem até o seu computador para mostrar uma série de apresentações produzidas para investidores e palestras, que confirmam os dados e estudos mencionados].

10 dicas para viver com entusiasmo, por Luiz Marins
1. Afaste-se de pessoas e fatos negativos.
2. Valorize suas ideias e intuição. Acredite em você.
3. Não reclame. Não fale mal dos outros.
4. Cultive o bom humor, o sorriso, a alegria.
5. Ouça agressivamente. Dê atenção às pessoas.
6. Estenda a mão aos outros. Coopere. Participe.
7. Comprometa-se. Faça mais do que esperam de você.
8. Faça tudo com atenção aos detalhes.
9. Cuide-se. Vista-se bem. Goste de sua imagem.
10. Não chore. Decida-se a mudar a realidade. Aja.


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