REPORTAGEM
30/03/2017    Por Marcela Goldstein
Atrás do que estamos CORRENDO?
Entenda porque, além dos benefícios físicos, aatividade pode ser a chave para atingir o seu melhor potencial em diversas áreas da vida
foto: Divulgação

Não é impressão: muita gente começou a correr pelas ruas do Brasil nos últimos anos. O médico Dráuzio Varella, 73 anos, por exemplo, aderiu à prática para provar a si mesmo que a decadência não começaria aos 50. A advogada Maria Eugênia Cerqueira comemorará seus 70 anos correndo 42 quilômetros na Maratona da Muralha da China. Já Leonardo Marques, 12 anos, conta que a atividade o ajuda a ter mais concentração para estudar. E, para o executivo Cícero Barreto, 43 anos, participar de ultramaratonas lhe trouxe muita disposição, equilíbrio emocional, psíquico e físico. Esses corredores mostram que existem inúmeras razões para terem escolhido a modalidade. Cada qual com seus motivos, mas todos sabem explicar porque faz tanto sentido pular cedinho da cama, num domingo de inverno, para correr alguns quilômetros. Ao deixar de ser um esporte individual, a prática cresceu muito nos últimos anos, não apenas entre pessoas com perfil atlético e obstinação por resultados, mas também para quem busca uma vida mais saudável e não quer apenas competir. Ter mais saúde, emagrecer, modelar o corpo, melhorar o sono e o humor, liberar endorfina, conhecer novas pessoas, ter mais foco, atingir metas, poder comer sem culpa, enfim são as incontáveis razões pelas quais cada vez mais pessoas buscam a corrida.

Um mercado promissor
O maior acesso à informação e os cuidados mais intensos com a saúde levaram a um acréscimo exponencial do número de praticantes de atividade física e, consequentemente, do mercado destinado a esse público. Da mesma forma, houve um significativo aumento da mídia especializada - revistas e sites promovendo a modalidade; e de fabricantes voltados para esse segmento, que passaram a oferecer tênis cada vez mais modernos e arrojados, camisetas com tecnologias que melhoram a regulação térmica do corpo, enfim, produtos cada vez mais tecnológicos são lançados com maior frequência. É um negócio que não para de crescer. Desde microempreendedores individuais: massagistas, fisioterapeutas, personal trainers, técnicos de som a grandes empresas organizadoras de provas. Nos Estados Unidos, o fenômeno da corrida gera três bilhões de dólares anualmente. Já no Brasil, estima-se que a venda de artigos esportivos para corredores, de bebidas como isotônicos e o turismo voltado para o esporte movimentem por ano três bilhões de reais. Os valores tendem a crescer. Uma pesquisa realizada pela Corpore Brasil em parceria com a Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo mostrou que 75% dos corredores têm nível superior e 25% deles ganham entre oito e 20 mil reais por mês. De todo o universo pesquisado, 33% dos homens disseram ter comprado um tênis de corrida nos últimos três meses e 18% das corredoras afirmaram que adquiriram, no mesmo período, bermuda ou camiseta para praticar o esporte. Segundo a Corpore, uma única corrida de rua movimenta entre um milhão e meio e seis milhões de reais, dependendo da quantidade de atletas vindos de outros Estados. Do total arrecadado, 40% permanecem na
cidade-sede do evento, na forma de despesas com turismo, hospedagem e lazer. A Yescom Entretenimento, Esportes e Comunicação é uma prova desta expansão. Fundada há mais de 30 anos, atualmente é reconhecida como uma das principais realizadoras e organizadoras de corridas de rua do País, entre elas São Silvestre, Meia Maratona Internacional de São Paulo e do Rio, Jogos Panamericanos de Havana e Rio de Janeiro, Volta Internacional da Pampulha, em Belo Horizonte, entre outras. “Entendemos que a corrida de rua tinha muito potencial e focamos nesse produto desde 1997, trazendo novas propriedades de comunicação, parceiros de mídia de tevê, rádio e internet, entregando boa visibilidade e associando a marca a um bom evento. Essa fórmula fez com que as nossas provas crescessem e que nos posicionássemos não apenas como produtor, mas como uma empresa
de comunicação e entretenimento”, afirma Thadeus Cassabian, diretor da Yescom. Com uma equipe de 30 pessoas, a empresa, que tem sede em Alphaville, realizou 30 provas, quatro feiras e dois duathlons, apenas no ano passado. Para Thadeus, os principais desafios para a realização dos
eventos são o licenciamento junto aos orgãos públicos, obter as 25 autorizações em média; e a parte comercial e a produção do evento em si. Já em relação ao aumento de corridas temáticas e segmentadas, o empresário afirma que elas trazem um público diferente e novo, que acaba se motivando para as corridas de média e alta performance, e a tendência é que continue a crescer. 

Números expressivos
A febre de correr, antes footing¸ agora running, consolida-se como um fenômeno universal que nos EUA já contagiou mais de 50 milhões de pessoas.
No Brasil, segundo o Ministério dos Esportes, 54% fazem algum tipo de atividade física, e de acordo com a consultoria espanhola Relevance, 5% dos maiores de 16 anos correm. O ano de 2016 pode ser considerado positivo para as corridas de 42,195 km realizadas no País. Apesar de o número de
provas da distância ter diminuído (eram 19 em 2015 e ano passado foram 17), a quantidade de atletas que cruzou a linha de chegada de uma maratona no Brasil cresceu consideravelmente. Conforme levantamento realizado por Danilo Balu, bacharel em esportes pela Universidade de São Paulo e autor do blog Recorrido, 19.942 pessoas completaram os 42 km em solo brasileiro em 2016. Em 2015, esse número foi de pouco mais de 15.300, ou seja, um aumento de cerca de 30%.

Pelotão feminino
Dos quase 20 mil maratonistas brasileiros no ano passado, 19% eram mulheres. Em 2016, 3.724 corredoras cruzaram a linha de chegada dos 42,195 km. Um aumento de 43% em comparação a 2015. Com 24,8% de mulheres (1.366 concluintes), a Maratona do Rio foi a que contou com maior participação feminina. Em relação à velocidade, o brasileiro mostrou-se mais veloz nos 42,195 km do que os americanos (os EUA são o país com maior número de maratonistas no mundo). Em 2016, o tempo médio do pelotão masculino no Brasil foi de 4h16min15s. Já a média feminina foi de 4h37min39s. Nos EUA, conforme dados de 2015, do Running USA, a média dos homens na distância foi de 4h20min13s e a das mulheres, 4h45min30s.
No Brasil há uma série de corridas só para mulheres como a Venus 15 km, W21 km, Mulheres em Movimento, Corrida Lotus, entre outras. Criada em 2010 para celebrar o Dia da Mulher, a WRun, realizada pela Iguana Sports, considerada a maior corrida feminina do país, reuniu no último dia 5 de março, no Jockey Club de São Paulo, 8.968 concluintes.Destas, 4.686 corredoras completaram a linha de chegada dos 4 km. Outras 4.282 atletas finalizaram o percurso de 8 km. A prova reuniu mulheres das mais diferentes idades. Como na maioria das corridas de rua do país, a maior parte das participantes tinha entre 30 e 39 anos.

Em Alphaville e região
Com um número expressivo de praticantes de corrida, a região sedia diversas provas. Entre as principas deste ano estão a Moon Light Run, realizada em fevereiro pela Ativo Eventos, com largada à noite em frente ao Parque Shopping Barueri. Já em março, aconteceu a Corrida 5 km e 10 km Barueri - realizada pela New Times Sports. Em 2 de abril, foi a vez da Track & Field Run Series Iguatemi Alphaville, que já reuniu mais de 12 mil participantes em
11 edições. Há também a corrida noturna Eu Atleta 10 km e 5 km - etapa Barueri Alphaville, realizada pela Yescom, ainda sem data definida.

NUNCA É TARDE PARA COMEÇAR

foto: Renato Parada

Aos 73 anos de idade, o médico Dráuzio Varella conta como a corrida o ajuda a ter disposição para realizar todas as suas obrigações como médico, escritor, voluntário, pesquisador, apresentador de TV. Maratonista há mais de 20 anos, já viajou o mundo atrás de provas de 42 km: esteve nas de Buenos Aires (Argentina), Boston e Chicago (EUA), Berlim (Alemanha) e Tóquio (Japão), entre outras. Defendendo a ideia de que a corrida traz a sensação de sermos capazes de resolver qualquer coisa e reafirmar a necessidade de uma mudança de hábitos para que possamos desfrutar bem a vida e envelhecer com saúde, escreveu o livro Correr - O Exercício, a Cidade e o Desfio da Maratona, lançado pela editora Cia das Letras, em 2015. A seguir, saiba mais sobre a relação do famoso médico paulistano com a atividade física que se tornou essencial em sua rotina.

O senhor tornou-se maratonista aos 50 anos, quando muita gente já está desacelerando. O que mudou em sua vida desde então?
Propus um desafio para me provar que a decadência não começaria aos cinquenta, no meu caso. Decidi correr a maratona de Nova York, em novembro do ano seguinte. Pensei: quem consegue correr 42 km deve ser capaz de enfrentar o futuro com mais otimismo e sabedoria. Quando podia chegar ao hospital um pouco mais tarde, dirigia até o Parque Ibirapuera para correr trinta minutos que fossem, em passadas rápidas, no limite do fôlego. Se estivesse mais folgado, corria mais tempo, em passo lento. Com a alternância senti que ganhava velocidade e resistência. Em três meses pude completar 15 quilômetros; no fim de abril já conseguia correr 12 quilômetros.

O que mudou na sua vida a partir disso?
Já nos primeiros treinos, experimentei o impacto do exercício aeróbico no condicionamento físico. Perdi dois ou três quilos que não me faziam falta, ganhei músculos nas pernas, fôlego para subir escadas, mais disposição para enfrentar as atividades diárias; descobri o prazer que um humilde banquinho de madeira pode proporcionar ao corpo cansado e o alívio dolorido que a cama traz à musculatura das pernas, à noite. O ganho mais surpreendente, porém, veio do lado psicológico. A sensação de paz que se instalava no fim das corridas deixava rastros pelo resto do dia. Já no banho da manhã, quando eu pensava nos compromissos que me aguardavam, tinha certeza de que seria capaz de cumpri-los. Consegui controlar melhor a ansiedade e a agitação da vida atribulada que sempre levei, tornei-me mais confiante e disciplinado. Ganhei serenidade.

Por que tanta gente reconhece que a atividade física é essencial para a saúde mas não consegue abandonar a vida sedentária?
Senti na carne o tormento que é levantar da cama de madrugada para correr. Passados mais de vinte anos, meu primeiro quilômetro ainda é dominado por um único pensamento: não há o que justifique um homem passar pelo que estou passando. Existe sofrimento mais atroz do que deixar a cama quente, no horário em que o sono é mais arrebatador, vestir o calção, a camiseta e calçar o tênis para sair correndo? É só depois do primeiro quilômetro, quando as sucessivas contrações musculares enviam sinais para que o cérebro libere endorfinas na circulação, que o exercício se torna
suportável. O bem-estar que a atividade física traz e a tranquilidade que toma conta do corredor só acontecem, de fato, no fim da corrida. Se ouço alguém dizer que acorda cheio de vontade para correr, nadar, pedalar ou levantar peso na academia, por educação fico calado, mas duvido que seja verdade. Essa disposição pode acontecer num dia de sol, na praia ou num sítio, entre amigos, no dia a dia jamais. 

Quais são as principais lesões, machucados e problemas de saúde ocorridos durante e após as maratonas?
Um estudo realizado com participantes da Maratona de Auckland, na Nova Zelândia, avaliou relações existentes entre peso corpóreo, altura, experiência prévia em maratonas, tempo e intensidade dos treinamentos e conclui que os homens correram mais risco de contraturas e dores na musculatura da parte de trás da coxa e da panturrilha. As mulheres ficaram mais sujeitas a dores nas articulações da bacia. Dores nos joelhos foram relatadas por 25,6% dos participantes. O risco foi maior nos que disputavam a primeira maratona e naqueles que haviam corrido menos quilômetros
semanais no período de treinamento anterior às duas semanas que precederam a prova. Não houve relação entre o índice de massa corpórea (IMC = peso/altura ao quadrado) do corredor e o risco de lesões musculares ou outros problemas de saúde.

Correr realmente machuca os joelhos?
Em média, o corredor atinge o solo com forças de cerca de oito vezes o peso corpóreo — três vezes maiores do que o impacto sofrido ao andar. Quando corremos, porém, as passadas são mais largas, os pés se chocam contra o solo com frequência menor do que no caminhar e ficam menos tempo em contato com o chão. Como consequência, as sobrecargas nos joelhos ao corrermos ou ao andarmos determinada distância são equivalentes. É provável que correr até exerça efeito protetor.

CONHEÇA AS HISTÓRIAS DE MORADORES DE ALPHAVILLE QUE, POR MEIO DA CORRIDA, TRANSFORMARAM SUAS VIDAS

foto: Khazar Sadang

Alto desempenho nas provas e nos negócios
O sul-mato-grossense Cícero Barreto, 43, é diretor de marketing e comercial de uma importante operadora de planos de saúde do segmento premium. A corrida entrou em 2005 por puro hobby na vida do executivo, que hoje é considerado um dos melhores atletas amadores do país no trail run, modalidade de corrida realizada em trilhas e montanhas. Cição, como é conhecido, se divide entre sua atribulada agenda profissional, treinos diários de alto desempenho para provas extremas, esposa e filhas. Para ele, o segredo está no planejamento, gestão de tempo e disciplina. “Resolvo o que
poderia ser o principal entrave - o trânsito em uma cidade como São Paulo - acordando cedo e partindo para o treino já perto da empresa. Ou seja, quando a maioria ainda está nos congestionamentos reclamando, eu já estou de treino feito, banho tomado e feliz da vida na minha mesa de trabalho”, revela. Cição participou de desafiadoras ultramaratonas ao redor do mundo como a UltraTrail du Mont Blanc, em 2010, entre as fronteiras da Suíça, Itália e França, que considera até hoje seu maior desafio. “São 7.250 metros de altimetria, ou seja, são subidas e descidas constantes, como numa montanha russa”, conta. Em sua trajetória, conquistou expressivos resultados como o sexto lugar nas congelantes Ultra Trail de Torres del Paine 2015, nono lugar Ultra Fiord 2016, ambas de 100 km, realizadas na Patagônia, Chile. No ano passado, tornou-se o primeiro brasileiro e sul-americano
a vencer os 100 km da Sunrise to Sunset, na Mongólia, no ano passado, após 12 horas e 59 minutos de maratona. Segundo o executivo, o esporte trouxe benefícios não apenas para sua vida atlética como para a profissional. “São mundos muito parecidos, pois os desafios se equivalem. Nas duas áreas tenho que ter meta, objetivos, saber executar trabalhos em várias etapas e em equipe. Mas, como sou apaixonado por tudo que faço, são
tarefas e responsabilidades que me dão muito prazer”, afirma. O experiente ultramaratonista segue com orientações de especialistas e treina horas e horas em terrenos com muita altimetria, realiza treinos de força, faz alongamento e possui alimentação equilibrada. “É preciso seguir orientações tanto na corrida em rua quanto em montanha. Elas destroem muros, constroem pontes e não permitem vaidades”, aconselha. Seu próximo desafio? Correr
112 km, largando à meia-noite, na Hungria.

foto: Arquivo pessoal

Concentração nos estudos
Na contramão de uma boa parcela de crianças da sua faixa etária que preferem ficar em casa jogando videogame, na redes sociais ou assistindo à televisão, Leonardo Martins, 12, participa de provas de 5 km, segue à risca a planilha do treino de corrida e fortalecimento preparada pelo seu personal trainer. A paixão pela corrida vem de família. Desde muito pequeno, Leo acompanha seus pais em maratonas. “A corrida me traz concentração, faz
com o que eu tenha vontade de dar sempre o meu melhor, o que ajuda muito nos estudos”, conta. E sim, como os garotos da sua idade, tem o celular cheio de aplicativos. Adivinhe quais são os seus preferidos? Os de corrida, claro

foto: Arquivo pessoal

Avó maratonista
Após uma séria pneumonia aos 50 anos, a advogada e escritora, Maria Eugênia Cerqueira 69, decidiu parar de fumar. Com o tempo, começou a
engordar. Para voltar à forma física, resolveu caminhar no residencial onde mora, em Alphaville. Passou então a correr 500 metros, 1 km e, em um
ano, estava correndo 5 km. Desta forma nasceu seu relacionamento amoroso com a corrida. De lá para cá, não parou mais. Participou de mais 35
maratonas em lugares como Nova York, Paris, Dubai e Rio. “Correr é muito recompensador. Faz bem para a cabeça e, de bônus, ficamos com o corpo
melhor”, diz a avó. Aos 58, desafiou a si mesma. “Passei a fazer conjecturas sobre como me sentiria ao entrar no mundo dos sexagenários. Selecionei, então, a mais charmosa ultramaratona do mundo, a Comrades, e comecei, com ajuda de equipe técnica, a me preparar para conquistar os cerca de 90 quilômetros entre as cidades de Pietermaritzburg-Durban, na África do Sul”, conta. Fez Pietermaritzburg-Durban e “down-run” (corrida-descida) em 2008 e Durban- Pietermaritzburg “up-run” (corrida-subida) em 2009. Ambos os sentidos da prova são igualmente difíceis. Bastante acidentada, a ultramaratona é popularmente chamada de “big five”, em referência aos cinco grandes animas mais difíceis de caçar - leão, rinoceronte, búfalo, leopardo e elefante. Em 2009 foi a vez da Two Oceans, 56 km, na Cidade do Cabo, África do Sul, considerada a mais bonita do mundo. Este ano, Maria Eugênia completa 70 anos e, para comemorar, seu presente será participar da Maratona da Muralha da China, que acontecerá em maio. Desafiadora e exótica, a prova que consiste em uma maratona, uma meia maratona e uma corrida de 8,5 km, o percurso passa por fazendas locais, sendo que 6 km são sobre a Muralha. Além disso, o trajeto conta com 3.700 degraus de subida. Tantas realizações têm seu preço. A escritora faz alongamento três vezes por semana, bem cedinho, com a mesma professora há 16 anos, segue todas as dicas de seu treinador e, principalmente, “ouve” seu corpo. “É preciso ir devagar e ter muita paciência e persistência, porque, se tiver uma lesão, regridirá”, aconselha.

foto: Arquivo pessoal

Trabalho em equipe
A união faz a força. Essa máxima é comprovada pelo grupo formado por oito moradoras de Alphaville, na faixa de 40. Com o nome Run, Forest, Run, em homenagem ao filme Americano no qual o personagem Forrest Gump, interpretado por Tom Hanks, que cruza os Estados Unidos correndo, parando somente mais de três anos depois, a equipe que se uniu há cinco anos possui uniforme, incuindo meias personalizadas. “Cada uma segue seu próprio treino de corrida e fortalecimento”, conta a médica e integrante Ana Paula Silverio, 43. Desde que o grupo foi criado, já participaram juntas de importantes maratonas no País, entre elas a Volta à Ilha, corrida de revezamento em Florianópolis - trajeto de 140 km, divididos em 17 trechos, com diferentes quilometragens, dificuldades e tipos de terreno, da qual participaram novamente este ano. “Incentivamos uma à outra, puxamos a orelha de quem falta aos treinos e trocamos muitas dicas”, afirma Ana Paula.

CONEXÃO EMOCIONAL E FÍSICA

foto: Armando Grillo

Bruno Zanuto, 34, foi atleta profissional por 18 anos, ex-jogador da Seleção Brasileira de Vôlei, Campeão Mundial e eleito o Melhor do Mundo na sua categoria. Especialista em Mindset Esportivo e Alta Performance, o atleta é fundador e coach do TMRun (Treino Mental Para Corredores), programa que ajuda as pessoas a aprenderem como usar melhor o poder da mente para aumentar o desempenho esportivo e o desenvolvimento pessoal. A seguir, confira entrevista que o coach concedeu à Viva S/A.

Quais as principais dicas para melhor performance na corrida?
A primeira dica é seguir uma planilha de treinamentos feita por um profissional da área, o que traz um direcionamento na carga e intensidade do treinamento, além de ser uma maneira segura de executar o exercício físico. Porém, mesmo seguindo a primeira dica, a maioria dos corredores esbarra em suas barreiras mentais e começa a ter resultados abaixo do esperado. Frustrados, acabam abandonam os treinos. Não importa o quão bem fisicamente você está preparado, o seu corpo vai “performar” até onde a sua cabeça permitir. Já existem inúmeros estudos científicos que apontam
para o fato de que a fadiga mental é um grande limitador de performance esportiva.

O que faz um corredor criar força, persistência e determinaçãopara continuar quilômetro após quilômetro?
Na hora em que está perto do seu “limite” físico, não existe resposta racional. O corredor deve ser preparado para estar conectado emocionalmente com o seu objetivo. É isso que o mantém determinado e motivado, apesar de todo desconforto físico e pensamentos limitantes que possam aparecer nesse momento tentando negociar a redução do ritmo ou a diminuição da meta pré-estabelecida. Em 1990, o Cientista Tim Noakes comprovou que uma parte mais primitiva do nosso cérebro regula a nossa performance com o objetivo de proteger o nosso corpo e mantê-lo dentro de uma zona com um padrão normal de atividade, por isso é tão desconfortável sair da nossa zona de conforto e imprimir um ritmo mais forte. Até onde a ciência sabe, a parte racional do nosso cérebro não está diretamente ligada à área em que acontecem as tomadas de decisão. É a parte emocional que se conecta diretamente à tomada de decisão. Então, saber como acessar o seu “melhor estado” antes de cada treino e cada prova faz uma grande diferença na construção dos seus resultados.

Comente sobre o que chama de “efeito Frank Sinatra” na corrida
As nossas barreiras são internas, por isso, se você não tem autoconfiança isso vai se refletir em diferentes áreas da sua vida, como no trabalho, nos relacionamentos, nos investimos e antes de uma prova de corrida. O que quero dizer é que seus limites internos vêm à tona em diferentes situações, e independentemente do campo no qual você escolha trabalhar (terapia, treinamentos de desenvolvimento
pessoal ou esporte), uma vez superados também é esperado que isso se reflita em diferentes áreas. Passar para o próximo nível na corrida traz um sentimento de empoderamento que pode ser levado para diversos setores da vida. Eu acredito que a corrida é uma grande ponte de transformação pessoal e um campo ilimitado de desenvolvimento pessoal. No exato momento de superação das barreiras, acontece algo que gosto de chamar
de “Efeito Sinatra”, como na música New York, New York, em que Frank Sinatra canta “if I can make it there, I’ll make it anywhere” (se eu posso fazer isso ali, eu posso fazer em qualquer lugar).

Quais os erros mais comuns que prejudicam a performance de quem corre?
A falta de preparação para iniciar um treino, por exemplo, é uma delas. A grande maioria dos corredores “cumpre tabela” nos treinamentos, e não está ali por inteiro. Na correria do dia a dia, a cabeça está sempre conectada no trabalho, na próxima reunião, no relatório que está atrasado, nos filhos... Podemos identificar outros erros comuns, como falta de foco, dificuldades na concentração, baixa conexão corporal, pouca resiliência, dificuldades
de estabelecer metas, entre inúmeros outros. Outro ponto muito comum é o excesso de tecnologia. Muitos atletas começam a prática completamente dependentes de gps, playlists, frequencímetro e planilhas regradas de treinamentos. Eles podem ajudar muito no controle e na evolução da performance, desde que utilizados da maneira correta e para otimizar algo que você já conheça bem, no caso, o seu corpo. Boa parte dos corredores que conheço não conseguiria terminar um treino longo ou uma prova se seus aparelhos eletrônicos falhassem. Portanto, não possuem a sensibilidade para identificar qual ritmo devem imprimir nos treinos, um repouso maior entre um treino e outro, uma mudança na alimentação, ou a necessidade de encontrar um momento para meditar.

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