ENTREVISTA
27/07/2018    Por Soraia Sene
"Seja um especialista em seu próprio filho"
É o conselho de Marcos Piangers, o papai mais famoso da internet, a todos que desejam exercer a paternidade de maneira plena. A seu ver, devemos dedicar tempo exclusivo para conseguir entender os sinais que os filhos emitem
foto: Mathias Cramer

A nova configuração de sociedade tem sido um desafio aos homens. Respeitar os espaços que as mulheres conquistaram há anos no mercado de trabalho, nas universidades, entre outros, é uma exigência que, aos que se contrapõem, resta a execração pública. Mas há um universo, uma das últimas searas exclusivamente femininas, em que muitos homens já estão se aventurando, e com muito êxito, que é o mundo da criação dos filhos.

Embora, para alguns, ser pai ainda seja amedrontador, muitos estão encarando o desafio de não apenas dar o sobrenome e atuar como espectador, mas o de enfrentar as fraldas, a pia suja, as lições de casa e todos os outros afazeres que antes faziam parte apenas do universo feminino e em que eles, quando muito, “ajudavam” e ainda eram elogiados.

Um dos expoentes do movimento de reconstrução desse novo pai é o jornalista, escritor e palestrante Marcos Piangers, que em 2013 começou a contar suas aventuras da paternidade - ele é pai de Anita, 13 , e de Aurora, seis - em uma coluna de jornal que logo ganhou projeção e se tornou seu primeiro best-seller, O Papai é Pop (Ed. Belas Letras). Hoje já lançou O Papai é Pop 2 e faz palestras dentro e fora do País.

O catarinense já tem mais de três milhões e meio de seguidores no Facebook, 560 mil no Instagram e mais de trinta milhões de views em seus vídeos na internet. Em sua opinião, a receita para uma paternidade efetiva é cada pai se tornar especialista no próprio filho, dedicando-lhe tempo exclusivo, ouvindo muito e aprendendo o máximo sobre ele.

Em entrevista exclusiva a Viva S/A, Marcos contou um pouco da sua história e do seu dia a dia.

Como é a sua rotina? Você cuida das meninas e da casa, ou seja, das tarefas domésticas também?
A nossa rotina, graças a um planejamento de longo prazo, permite hoje que trabalhemos de casa. Minha esposa e eu somos escritores, jornalistas e também palestrantes. Conseguimos organizar nossa agenda entre viagens e tempo em casa. É uma rotina muito focada nas meninas e podemos nos envolver também em termos escolares, estar perto das professoras, a fim de adquirirmos ferramentas para educá-las bem. Muita conversa exclusiva, muito olho no olho, muito ‘estudar junto’, passear junto, muito ‘andar de mãos dadas’, coisas que fortalecem nossa relação e nos ajudam a ser pais melhores. Desde muito pequeno, minha mãe me ensinou a lavar louça, limpar o chão, cozinhar, e lá em casa é assim, não tem tarefa de mulher e de homem, é um trabalho em equipe, todo mundo se ajudando para que todos tenham uma vida mais tranquila, mais feliz, plena, e com maior capacidade de realização e felicidade.

Como foi seu despertar para essa paternidade plena?
Foi da observação das dificuldades da sua esposa, ou devido à sua própria história? Penso que ainda estou em busca de uma paternidade plena, de uma perfeição na criação dos filhos, algo que, acredito, nunca vai chegar, mas que todos os dias a gente pode melhorar um pouquinho. Acho que, em muitos momentos, ainda tenho de melhorar e manter a conexão com as minhas filhas, ficar menos focado no celular, menos centrado no trabalho, menos com a cabeça em outros lugares, e, acredito que não existe uma ‘virada de chave’ específica, mas um aprendizado diário. A chegada de uma criança dá chance de você se transformar e essa transformação foi acontecendo aos poucos comigo, mas o grande marco, talvez, tenha sido o lançamento do meu livro O Papai é Pop, porque as pessoas lidam com esse livro como um divisor de águas em suas vidas. Penso que essa tenha sido a grande virada, a noção de que eu tinha responsabilidade de influenciar essas pessoas de forma positiva e, consequentemente, afinei meu discurso, busquei bibliografias para me abastecer de referências, e me aproximei de profissionais que pudessem me ajudar nessa missão.

Qual seria o pai ideal?
Acho que o pai ideal é aquele que percebe que vivemos em uma sociedade obcecada por consumo, por estar sempre correndo, e por tecnologia. Esses três pontos nos distanciam profundamente da nossa felicidade e da nossa família. Um pai ideal é aquele que sabe a hora de usar o celular e a hora de não usar o celular. É um pai ciente do que pode e do que não pode comprar e que entende que estar sempre na correria é sinal de que é escravo de alguém. É importante focar no que realmente traz resultado, começar a planejar uma vida com menos para poder trabalhar menos e, assim, estar mais perto dos seus filhos. Ter tempo de qualidade com atenção, carinho, afeto, amor com o seu filho. Ter esse tempo é a coisa mais preciosa em que um pai pode investir.

Você tem uma filha adolescente e outra ainda criança. O que muda no tratamento de uma e de outra?
Como você criou e mantém a conexão com cada uma? A filha adolescente já está exposta a uma série de questões dessa fase. Temos de conversar a respeito de sexo, drogas, tecnologia, redes sociais, celulares, sobre as amigas dela, as relações das amigas com seus pais, sobre escola, namoro, e sobre hormônios. Nesse processo, temos uma conversa bastante diferente de uma com a outra. Mas o mais importante é cultivar tempo exclusivo. Se você tem dois, três, quatro ou cinco filhos, é muito importante que você tire na semana tempos exclusivos para conversar individualmente com eles, para entender exatamente o que cada um está passando; e se conectar novamente com os sentimentos dele, para se tornar um pai melhor. Acho que essa é a regra de ouro. Ter tempo de qualidade para prestar atenção nos sinais que seu filho está passando e, consequentemente, ser um pai personalizado, específico para o seu filho. Eu costumo dizer que o melhor pai do mundo para um filho pode ser o pior pai do mundo para o outro, porque temos de nos especializar no nosso filho para conseguir entender os sinais, a hora de dizer sim, a hora de dizer não; o momento de ser um pouco mais firme, e o de ser mais gentil e carinhoso. 

foto: Mathias Cramer

Como você dosa liberdade e limite?
Eu acredito que o principal seja prestar atenção nos seus filhos, é estar com eles de forma atenta e afetuosa. Você vai perceber quando seu filho está impertinente, quando está desrespeitoso, e vai entender que é a hora de ser um pouquinho mais firme em tudo aquilo que faz sem perder a gentileza. E é bonito ver quando isso funciona, quando seus filhos são educados, gentis, humanos, buscam a justiça, e entendem a hora de usufruir a liberdade e a hora de respeitar os limites.

E quando você se aborrece com algo que elas fizeram? Como é o Piangers aborrecido?
Aplica algum tipo de punição? Eu aboli as punições há algum tempo. Foi muito difícil para mim perceber que o castigo mais me distanciava das minhas filhas do que mostrava para elas o caminho correto de se comportar. Quando você coloca um limite e explica para o seu filho o porquê, ele, de forma muito madura, respeita esse limite. Se você simplesmente impõe o limite e dá um castigo toda vez que ele ultrapassa esse limite, ele se sente injustiçado. Temos optado pela conversa. É um trabalho mais demorado, mas muito gratificante, porque, em médio e longo prazo, funciona, e funciona muito bem.

Há correntes que defendem o não incentivo aos estereótipos de gênero, como deixar o filho brincar com boneca ou a filha, de carrinho. Pensa que isso pode mudar a mentalidade das futuras gerações quanto ao papel dos homens e das mulheres?
Acho que sim. Conversar a respeito da responsabilidade de homens e mulheres, de meninos e meninas ser cuidadores é muito saudável. Mas, como eu disse, sou um pai adaptado às minhas filhas. A minha filha mais velha é muito aberta a esse tipo de discussão e interessada nas questões de rosa e azul, boneca e carrinho, futebol e balé, tudo aquilo que divide o homem e a mulher. A minha mais nova tem só seis anos, adora princesas, rosa e roxo; claro, influenciada por toda a formação na escola. Ainda existem coleguinhas que são criados de uma forma diferente, muitas vezes machista, que diminuem as meninas, que dizem que elas são mais lentas, não sabem jogar futebol, e isso a Aurora vê, questiona, e eu converso bastante com ela, mas ela ainda replica, porque assiste ao redor. Eu penso que vai levar algumas gerações para, de fato, termos o impacto de uma geração igualitária.

Como as mães cujos companheiros não participam ativamente da criação dos filhos podem mudar esse quadro?
A mãe pode contribuir permitindo que o marido participe, sem críticá-lo. Ela costuma dizer que: ‘Ah, sabe como é homem ... homem não sabe fazer isso. Ah, botou a fralda errado’ ... e dá risada, e trata o pai como um bobo. É importante que a mãe respeite o jeito do pai, incentive-o a fazer, e não diminua aquilo que ele faça e não ria quando ele erra, porque o pai vai aprender fazendo, assim como a mãe aprendeu dessa forma. Ela também errou. É importante que exista esse incentivo, esse referencial, que o pai seja respeitado nos seus erros, e valorizado nos seus acertos. É um momento de reconstrução e eu agradeço a paciência das mulheres com a gente. Nós estamos aprendendo. Desculpem-nos!

E a escola? Acha que tem ajudado a aumentar o respeito às mulheres, ou ainda falta preparo aos educadores?
É muito difícil, hoje em dia, encontrar instituições de ensino privadas que não estejam comprometidas simplesmente com o lucro, e instituições de ensino públicas que não estejam sucateadas. Minha irmã é professora, e tenho o maior respeito por todos os pedagogos e professores, mas infelizmente é uma classe que ganha muito mal, e que tem um preparo subestimado pelo governo. Nós deveríamos assumir mais a nossa responsabilidade, o nosso papel como pais e participar mais ativamente da escola, para transformar aquela carência no ambiente escolar. Acho importante as escolas discutirem o respeito às mulheres, mas isso só vai acontecer quando todos assumirem seu papel na sociedade. É importante que participemos da escola, que o pai tenha tempo para estar junto com os filhos conversando sobre esses assuntos, e que isso seja trazido não só pelos professores, mas também pelos alunos. E aí tem também o papel do formador de opinião, do influenciador digital, de estar produzindo conteúdo nesse sentido.

A educação formal pode mudar a estrutura social que ainda privilegia mais o homem?
Ou isso será resolvido apenas com a educação informal, aquela recebida em casa, pelos pais? Eu acredito mais na educação informal, no poder de um pai e mãe participativos, de muita conversa, inspiração para o seu filho, e acredito bastante na influência social dos amigos, dos grupos sociais, que acabam influenciando os jovens, especialmente numa idade de pré-adolescência, a terem uma visão de mundo. Aí, sim, formam essa opinião, esse espírito crítico, essa capacidade de olhar com crítica o status quo, com crítica ao preconceito, com posicionamento em relação às questões que eles consideram errado. Acredito muito na transformação desses jovens com participação dos pais e um acompanhamento dos grupos sociais com o qual convivem.

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