ENTREVISTA
28/06/2018    Por Soraia Sene
Cristine Calazans
Pedagoga, neuroeducadora clínica, psicopedagoga clínica e institucional, professora de pós-graduação em Psicopedagogia e coach de família.
É formada em Pedagogia pela Universidade Mackenzie, em mediação transformativa de conflitos pela Escola Superior do Ministério Público e em Disciplina Positiva pela Positive Discipline Association

Conheça a disciplina positiva e como ela pode te ajudar 
O que é disciplina positiva e por que ela se tornou tão necessária nos dias de hoje?
A disciplina positiva é igual a respeito mútuo e cooperação, incorporando firmeza com dignidade e respeito como fundamento para ensinar habilidades de vida, e um espaço interior de controle. Pais e educadores passam a ter o objetivo de encorajar jovens a se tornarem respeitosos, responsáveis, cooperativos e com recursos para solucionarem problemas no decorrer de suas vidas. Os pais e educadores, muitas vezes, não entendem o comportamento das crianças ou adolescentes e, com a intenção de educar, acabam perdendo o controle da situação. Alguns são permissivos demais, outros controladores, partem para a punição, deixando de castigo, gritando. Isso desgasta a relação, e, pior, gera sentimentos como tristeza, decepção, mágoa, culpa, impotência, incapacidade, entre outros. O objetivo principal da criança é fazer parte e ter significado. O comportamento condenável se baseia numa crença errônea sobre o modo de como chegar a fazer e ter significado. Por exemplo: a criança só tem a atenção dos pais quando os mantêm ocupados com ela. Então, dá um escândalo no shopping, deixando-os bem irritados para conseguir o que quer. Na verdade a criança não sabe que ela só quer pertencer. Os pais que usam a disciplina positiva, nesse momento, podem dizer: ‘eu entendo que você está cansado, me preocupo com você e mais tarde vamos conversar sobre isso’, ou apenas redirecionar a criança para outra atividade e, mais tarde, com calma, falar de seus sentimentos.

Quais são as ferramentas para ajudar os adultos a desenvolver as habilidades nas crianças sem os tradicionais castigos ou recompensas? 
A disciplina positiva tem mais de conquenta ferramentas. Uma delas é ser um bom modelo para os filhos. A pausa positiva ajuda a acalmar e a trazer paz. Crie um lugar para se acalmar, use-o quando estiver irritado e, se não puder sair de cena, respire fundo ou conte até dez. Ajude o seu filho a criar o dele, peça para ele dar um nome especial para esse lugar. Quando ele estiver descontrolado, bravo, gritando, pergunte: ‘Que tal ir até o seu lugar especial,e mais tarde conversarmos?’ Evite sermões: ‘Quantas vezes já falei para fazer a lição de casa? Por que você não pode ser como o seu amigo que é super-organizado e sempre tira nota máxima? O que vai ser de você? Com certeza não vai muito longe na vida!’. No lugar disso, diga: ‘Eu notei que você ficou muito tempo no whatsapp e depois jogando com seus amigos na hora de fazer a lição de casa. Eu também percebi que você costuma deixar a lição de casa para o fim do dia, e aí fica cansado, desestimulado’. Quando cometer um erro ou falar coisas que não gostaria, primeiramente reconheça: ‘não deveria ter dito isso para você’. Depois, reconcilie-se: ‘Posso lhe dar uma abraço?’, ou peça desculpa para seu filho, e, por fim, resolva. ‘Vamos encontrar uma solução juntos?’. Com calma, poderá dizer como se sentiu, o que pensou e o que decidiu fazer quando ele estava tendo ‘aquele’ comportamento. Seja empático, pergunte como ele estava se sentindo antes e agora, o que pensou no momento, e o que ele decidiu. Os abraços são poderosos e nos fazem sentir um grande bem-estar.

Como se atinge o equilíbrio entre ordem e liberdade?
O caráter de uma criança sofre influência de três tipos de educação: educação não formal (família), formal (ambiente escolar) e informal (TV, mídias sociais, amigos). A educação informal se inicia desde quando o sistema nervoso do embrião começa a ser formado. Começa, a partir daí, uma conexão entre o ser e o meio ambiente e, assim ocorre por toda a sua vida. Vamos assimilando, acomodando e equilibrando aprendizagens por meio de novas experiências e vivências. Precisamos ensinar para os jovens o que é moralmente certo ou errado, explicando os porquês das regras de convívio social, desde bem pequenos. A criança é um ser social, aprende por meio da sua relação com o meio ao qual está inserida. Os seus impulsos, necessidades e desejos podem ser acompanhados de pertinho por um bom modelo de adulto. O adulto pode ajudar a desenvolver virtudes ou vícios de caráter - temos mais de trinta virtudes para desenvolver até os 21 anos de idade - e ensinar esses jovens a serem melhores, a superarem seus limites e contribuírem para uma sociedade mais adequada, consciente e bela!

O conceito de atenção plena entra na disciplina positiva? Como?
Podemos afirmar que as práticas se conversam. A atenção plena tem como objetivo reconhecer e aceitar o que está se passando no seu cérebro. Para se chegar a este ponto de aceitação é preciso passar por três etapas: definir sua intenção; focar naquilo que está acontecendo diante de si; e, criar um espaço aberto e seguro para refletir. Então, quando falamos em empatia, respeitando o que o outro está sentindo, pensando e decidindo, precisamos estar com a atenção no momento vivido, olhar nos olhos do filho, observar seu comportamento, suas preferências, valorizar suas conquistas.

Em um mundo tão competitivo, em que um erro pode significar ficar fora do mercado e a performance é cobrada desde os mais tenros anos escolares, como ensinar conceitos sobre resiliência, tentativa e erro, perfeccionismo entre outros que vão surgir na vida dos jovens dentro da própria família? 
Gosto muito de uma frase da Dra. Jane Nelsen, autora de um dos principais livros sobre a disciplina positiva: ‘Erros são, realmente, oportunidades maravilhosas para aprender’. Em nossa sociedade, aprendemos a ter vergonha dos erros. Todos somos imperfeitos. O que precisamos adquirir é a coragem de mudar nossas crenças debilitantes sobre imperfeição. Não há nenhum ser humano perfeito no mundo, embora todos exijam isso de si mesmos e dos outros - especialmente de crianças. Precisamos ter tempo para ensinar e encorajar nossos filhos, porque a vida passa muito rápido e é a nossa chance de deixar uma grande herança para eles: um caráter digno para enfrentar qualquer adversidade da vida.

Como ensinar jovens dentro da disciplina positiva a lidar com o seu grupo, em que a maioria ainda é educado na base das recompensas? Como passa a ser a interação desse jovem com seu grupo?
Por meio da disciplina positiva, as crianças ficam mais propensas a seguir regras que elas ajudam a estabelecer, tornando-se filhos, amigos e alunos colaboradores da família e da sociedade. A criança está sempre tomando decisões e formando crenças a respeito de si mesma, do mundo e do que ela precisa fazer para sobreviver ou prosperar. Este jovem, junto com a sua família, vai focar em soluções para resolver os conflitos, sem precisar de recompensas. A interação com o grupo ocorre normalmente, mesmo porque as famílias são diferentes e as diferenças devem ser respeitadas. O encorajamento é muito importante, ajuda no processo de sentir conexão, pertencimento, e eleva a autoestima. Sempre que puder, pergunte a si mesmo: ‘O que eu estou fazendo ou falando para o meu filho, o que o está incentivando ou desestimulando?’

Como pais e filhos podem abandonar o método tradicional de educação para abraçar a disciplina positiva? Quais são os primeiros passos? 
Existem três principais abordagens para a interação adulto e criança/adolescente: rigidez (controle excessivo), permissividade (sem limites) e disciplina positiva (gentileza e firmeza ao mesmo tempo). Quando o controle é excessivo, é responsabilidade do adulto estar o tempo todo atento ao comportamento da criança. Os pais precisam flaglar as crianças sendo ‘boas’ para premiá-las ou sendo ‘más’ para castigá-las. A permissividade ensina irresponsabilidade, porque adultos e crianças abrem mão da responsabilidade. Já por meio da disciplina positiva, as crianças ficam mais propensas a seguir regras. O primeiro passo que os pais devem tomar é entender os cinco critérios da disciplina positiva e se identificar com eles (Veja box).

Como a disciplina positiva pode contribuir na resolução de problemas como propaganda infantil na TV e na internet, dependência de jogos e de redes sociais, entre outros conflitos entre pais e filhos? 
Gosto muito de uma ferramenta da disciplina positiva que se chama reuniões de família, pois abordam vários conflitos e são valiosas oportunidades de ensinar habilidades sociais e de vida para um bom caráter. Nelas, as crianças aprendem a escutar, elaborar ideias, respeitar e ser respeitado, resolver problemas, cooperação, fazer escolhas, interesse social, gerenciamento de emoções, comprometimento, entre outros. Os pais aprendem a dividir com os filhos responsabilidades de forma respeitosa, ser modelo das habilidades que querem desenvolver neles, bem como aprimoram a escuta ativa e a empatia. O grande problema é deixar a escolha dos programas, jogos eletrônicos, filmes, desenhos, sites de interação por conta dos filhos, fechando os olhos ou apenas confiando na qualidade do conteúdo e das interferências da publicidade. Sente no sofá com o seu filho e dê uma olhadinha nos seus programas preferidos. Converse com o seu filho de forma respeitosa e gentil.

5 critérios da disciplina positiva
1. 
Ajude a criança e adolescente a sentir conexão, a se sentir importante na família e na escola;
2. 
Encoraje o respeito mútuo, sendo gentil e firme ao mesmo tempo; 
3. 
Funcione em longo prazo, considerando o que a criança está pensando, sentindo e decidindo sobre si mesma e sobre o outro - sobre o que fazer no futuro para sobreviver e ser bem sucedido; 
4. 
Ensine habilidades sociais e habilidades de vida, como respeito, cooperação, empatia, responsabilidade, resolução de conflitos; 
5. 
Incentive a criança a descobrir suas capacidades, encorajando o uso pessoal e a autonomia. 

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