ENTREVISTA
28/06/2018    Por Soraia Sene
Carolina Nalon
Graduada pela Esalq-USP em Biologia, é coach especializada em coaching ontológico pelo Instituto Appana;
Certificada pelas instituições Sociedade Brasileira de Coaching em Executive & Business Coaching, Alpha Coaching e Personal & Professional Coaching, The Inner Game School of Coaching de Timothy Gallway. Fundou o Instituto Tiê em 2012

Mudando os acordos familiares com a comunicação não violenta
Você pode explicar o que é Comunicação Não Violenta?
Existem várias maneiras de explicar o que é CNV. Acho que a mais simples é dizer que se trata de uma ferramenta, uma metodologia para ajudar as pessoas a se comunicar para que haja entendimento entre elas. Mas, alguns indivíduos têm resistência em dizer que isso seja uma metodologia ou ferramenta, pois a CNV não é um conceito que já está fechado, porém um processo contínuo de pesquisa; e cada pessoa, ao ter contato com esses princípios, vai entender a maneira de integrar isso em sua vida, de forma única. O que acho bem importante é fazer uma provocação: como você aprendeu a se relacionar? Como aprendeu a se comunicar? Pois, em geral, nós conversamos muito sobre comportamento. Você faz algo que não me agrada, eu acuso seu comportamento e, porque o estou acusando, você vai se defender e ficamos presos nesse jogo de culpado e inocente. A CNV é uma alternativa para sairmos desse jogo e começarmos a nos comunicar demonstrando para o outro que temos uma ideia da qual é a sua motivação, de que entendemos qual é a necessidade que está por trás daquela ação. Uma frase muito importante de Mashall Rosenberg, que sistematizou a CNV, é que, por trás de todo comportamento, existe uma necessidade.

Você diz que é preciso esforço para se conectar com a necessidade do outro. Muitos pais não identificam essa necessidade, pois acreditam que já provêm aos filhos tudo o que estes precisam: educação, roupas, saúde, atividades extracurriculares, etc. Como fazer os pais se conscientizarem de que é necessário fazer esse esforço? 
Acredito que necessidades de carinho, de pertencimento, de amor, de compreenção e de escuta devem vir primeiro do que essas citadas na pergunta. Acho que são as mais importantes, e que os pais não deveriam pensar tanto em como será a estrutura que vão dar aos filhos. Claro que isso é importante, mas não deve ser a prioridade. A prioridade é o filho, em casa, se sentir amado, querido, escutado. Acho que, para responder a essa pergunta, temos de dar esse passo atrás. E fazer o pais se conscientizarem disso, do que é, de fato, a prioridade em uma família.

E do lado dos jovens? Teriam eles a maturidade de dar o espaço para entender comportamentos violentos, ou seja, a necessidade não atendida de seus pais? Como ensiná-los? 
Eu costumo dizer que CNV não é algo de que se fale a respeito, mas que se pratica. Nós, seres humanos, temos os neurônios espelhos, que fazem com que nos comportemos com o outro mais ou menos da maneira como ele está se comportando conosco. A melhor maneira de conduzir os filhos para que tenham esse mecanismo empático é tentar compreendê-los. É a maneira como os pais conversam com ele, é a maneira como demonstram sua empatia por ele. Acontece com frequência de os pais estarem no papel de educadores e sentirem a responsabilidade de dizer tudo para o filho, o que julgam certo e o que o filho deveria fazer, sem considerar o que ele gostaria de fazer, seus sentimentos e as suas necessidades. Primeiro, é preciso criar a conexão, para depois chegar a um acordo.

Você acha que existe a necessidade de um terceiro sujeito (psicólogo, terapeuta, pedagogo) sugerir, conduzir o processo de treinamento da CNV, ou é possível pais e filhos chegarem a esse denominador comum sozinhos? 
Interessante é que Marshall não foi o criador da CNV. Ele a sistematizou por meio da observação de relações que davam certo entre as pessoas. É possível que naturalmente exista empatia, autenticidade? Sim. Justamente por Marshall ter observado isso acontecendo, conseguiu sistematizar o método. É normal que as pessoas sejam assim, é o comum? Não. Tanto assim que, quase todas as pessoas que participam dos meus treinamentos, e com quem começo a falar sobre CNV, se identificam, percebem que fazem isso. Se você ou alguma pessoa da sua família está lendo esta entrevista e entende que a sua família precisa disso, em primeiro lugar você tem de participar de um treinamento, tentar mudar a maneira como se comunica e ver o que acontece. E então, num outro momento, se a situação estiver muito crítica e for algo muito importante para a família, aí sim vem essa sugestão: e se fizéssemos algo juntos? Fizéssemos sessões de terapia familiar? Acho que, primeiro, precisamos nos transformar e ver como essa transformação se adapta ao outro.

Existe algum tipo de treinamento para CNV?
Sim, existem vários. Eu ministro treinamentos. Há um, aberto ao público, chamado Caminho da Comunicação Autêntica. Também tenho feito muitos treinamentos em empresas. Existem outros profissionais desta área aqui no Brasil. O próprio Dominic Barter, que começou a CNV no Brasil; Sven Frölich-Archangelo, Sandra Caselato, Yuri Haasz. Temos cerca de sessenta facilitadores de CNV no Brasil, estamos formando um coletivo para potencializar a disseminação da CNV no País.

Minha necessidade versus a necessidade do outro. Como resolver essa equação dentro de casa? E quando os filhos são bem pequenos e ainda não compreendem que precisam ouvir? E quando são maiores e passam pela fase de “testar limites”. Como agir? 
Eu, realmente, recomendo que pais que estejam passando por isso procurem algum treinamento de CNV. Sobre esse limite entre mim e o outro, gosto de brincar que é como se todos nós nascêssemos sendo um copinho de café bem pequeno. E que, dentro desse copinho, imagine que tenha água. E essa água é nosso mundo emocional. Se você é do tamanho de um copinho de café e alguém joga uma colher de sal, rapidinho você vai se contaminar com aquilo. É como se o seu mundo emocional tivesse uma capacidade pequena para suportar essas aflições. A CNV é uma prática que o ajuda a alargar esse copinho. Conforme vai praticando, esse limite vai ficando maior e você consegue suportar um pouco mais os aborrecimentos que algumas pessoas possam lhe causar. Ao praticar, num momento você vai estar do tamanho de um balde, em que, se alguém jogar uma colher de sal, já não fará tanta diferença. Se for crescendo a ponto de ficar do tamanho de uma piscina, uma colherzinha de sal não vai fazer diferença mesmo. É claro que nosso desenvolvimento não é assim tão linear, mas, com a prática, você vai ganhando espaço para compreender melhor o outro. E a CNV, além de ser essa prática que o auxilia a ter mais espaço interno, também ajuda a criar melhores acordos nas suas relações. É como lembrar que, dentro da família, no final ninguém quer, intencionalmente, fazer mal a ninguém. Tudo o que queremos é ficar bem.

A empatia é necessária para dar início à CNV. E depois? Como manter o relacionamento em níveis saudáveis?
A empatia é o primeiro passo, porque é como se gera conexão com o outro. O outro só vai escutá-lo a partir do momento em que sentir que você o escutou. Saber demonstrar empatia é algo essencial. E o que vem depois é a autenticidade. Se conseguiu se conectar, se gerou essa abertura com o outro, aí vem o momento de falar de você. É como se fosse uma grande dança entre as necessidades do outro e as suas. Por isso falo que a CNV é uma prática para refazermos os acordos. É uma maneira de conseguir expressar as minhas necessidades ao mesmo tempo em que escuto as suas e tentamos fazer um acordo a partir disso. Saber se expressar, saber expressar o que você quer de uma maneira autêntica é essencial para estabelecer limites mais saudáveis.

Existem temas que podem ser sensíveis à família, como homossexualidade, consumo de drogas, consumismo. Como a CNV pode agir nisso?
Esses temas são muito comuns nas famílias. Quase todas elas têm de lidar com algum tema sensível, em torno do qual existe muito tabu e preconceito. É o momento em que a família mais precisa de conexão, de empatia e de entendimento. A empatia, para quebrar o preconceito, é extremamente poderosa. Por exemplo, um tema que é supertabu, a homossexualidade, contra a qual ainda existe uma grande intolerância. Esse preconceito não deveria mais existir e a empatia é muito potente para entendermos porque não deveria mais haver nenhum problema com relação a isso. Eu sou homossexual e entendo pais que têm essa dificuldade. É claro que precisa de empatia dos dois lados. É muito importante que eu, sendo filha e sendo gay, receba todo o apoio da minha família, e aí, ao receber esse apoio e acolhimento, eu também entender que, assim como precisei de um tempo para elaborar meu próprio preconceito, minha família também vai precisar desse tempo. No entanto, isso só é possível quando, num primeiro momento, eu sou acolhida. Acho que a CNV é mais do que fundamental quando esses temas começam a aparecer, porque ela ensina a gerar essa conexão, mesmo quando isto é muito difícil. O que vejo frequentemente é que, quando esses temas aparecem, existe mais julgamento, mais punição, mais controle, quando na verdade deveria haver mais empatia, mais compreensão, mais acolhimento, e é esse o caminho que a CNV abre.

4 PASSOS - da Comunicação Não Violenta
 
1. Observação: necessária para começar uma conversa falando apenas de fatos, sem colocar as próprias interpretações, sem contaminar a conversa com julgamentos; 
2. Sentimentos: entender que o que sentimos está ligado a uma necessidade que está ou não sendo atendida, e não jogar no outro a responsabilidade pelo que se sente; 
3. Necessidade: é a autoempatia, é conectar-se com as próprias necessidades para entendê-las e atendê-las; 
4. Pedidos: ter o autoconhecimento necessário para saber o que pedir, e fazer pedidos específicos como forma de atender às suas necessidades

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