ENTREVISTA
28/06/2018    Por Soraia Sene
Tatiana Fukamati
Formada em Biologia pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, com especialização em Neurociências e Psicologia Aplicada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Tatiana Fukamati criou o projeto "Revolução da Empatia" e integra redes que trabalham em prol da sustentabilidade e da inovação social. É uma apaixonada por empatia, sustentabilidade e inovação social e "semeadora de transformações" por profissão

Semeando transformação por meio da empatia 
Explique o conceito de empatia. 
A empatia nada mais é que a nossa capacidade de se colocar no lugar do outro, enxergar o mundo pelos seus olhos e compartilhar seus sentimentos. É a nossa capacidade de dar um mergulho no universo, grupo ou personagem de outra pessoa, compreender suas perspectivas e sentir ‘junto’. A empatia é o que permite a conexão real e genuína entre duas pessoas.

Você afirma que a empatia real quebra paradigmas, só que a maioria dos pais segue exemplo dos seus próprios pais na educação dos filhos, por acreditar que reproduzir aquele exemplo vai causar os mesmos resultados positivos. Como quebrar paradigmas diante desse quadro? 
Para compreender como mudar esses processos, precisamos entender como funciona o nosso cérebro. Ao longo da nossa vida, a forma como nos relacionamos, os comportamentos que aprendemos e a forma como somos educados geram padrões no nosso cérebro. É natural que, quando nos tornamos pais e mães, tenhamos a tendência a reproduzir esses padrões. Afinal, são os padrões que nosso cérebro reconhece. Mas precisamos aprender que é possível mudar e transformá-los. Nosso cérebro é plástico e se molda e se adapta aos novos estímulos que damos a ele. O primeiro passo vem da decisão de mudar esses padrões e comportamentos e ensinar ao nosso cérebro novas formas de se relacionar. Essa decisão consciente de fazer diferente é muito importante. A partir daí, por tentativa e erro, novos padrões são experimentados e alguns acabam se transformando em hábitos naturais. Os jovens, em especial os adolescentes, tendem a se fechar, não querem ‘ser amigos’ dos próprios pais e preferem dividir seus segredos com os colegas. 

Como a empatia pode transpor esse obstáculo? 
A empatia nos relacionamentos é um processo de reciprocidade. Se os filhos não querem se abrir com os pais, provavelmente existe algum bloqueio para que isso ocorra (medo é o mais comum). Os pais precisam criar um ambiente de confiança para que seus filhos possam, de fato, se abrir com segurança. A empatia passa pelos pais reconhecerem as necessidades, medos e angústias dos seus filhos enxergando a realidade pelo olhar deles. Muitas vezes os pais se esquecem de como é ser adolescente e acabam menosprezando as emoções dos filhos ou controlando excessos pelo uso do poder, e não da empatia. Além disso, para estimular que os filhos se abram, muitas vezes os pais precisam fazer um exercício de vulnerabilidade e também se abrir para seus filhos. Pais precisam conseguir enxergar situações pelo ponto de vista dos filhos, e estes precisam enxergar que os pais também são seres humanos, que também sofrem e têm sentimentos. Essa vulnerabilidade mútua cria caminhos para a empatia. 

Privacidade sempre é um tema delicado no relacionamento entre pais e filhos. Como os pais podem ficar ‘tranquilos’ com relação ao que acontece na vida dos filhos sem causar conflitos? 
Nenhuma relação de controle e poder é baseada na empatia. É preciso que haja um acordo em relação aos níveis de privacidade. Se não houver, qualquer estratégia será uma estratégia de controle e não de empatia. 

Vivemos tempos de muito ódio e divisões acirradas de opiniões, dentro e fora de casa. Como a empatia pode vencer essas situações?
A empatia é a ferramenta/estratégia para vencermos isso. A empatia nos ajuda a quebrar a barreira dos grupos, do ‘nós versus eles’. Ela nos auxilia a querer entrar no universo do outro e entender seu contexto, sua história de vida, suas razões para agir e pensar daquela forma. Somente pela empatia podemos resgatar a humanidade que existe dentro de cada um e lembrar que, em cada pessoa, por mais diferente de mim que ela possa ser, também mora um ser humano com medos, sonhos e necessidades. 

Se a empatia mora em todos nós, de onde nasce tanto ódio?
O ódio sempre nasce de uma necessidade não atendida. Se eu tenho uma necessidade essencial, como a necessidade de pertencimento por exemplo, e ela não é atendida, meu cérebro para de funcionar da maneira como ele deveria. Então, imagine que eu tenho necessidade de pertencer a um grupo, de me sentir aceito e acolhido. Mas aquele grupo não me aceita. Meu instinto me faz reagir de forma defensiva, usando a agressão ao outro como estratégia. Daí surgem as ofensas, a intolerância e até mesmo a violência física. Nós nascemos com a competência da empatia, mas, se o mundo constantemente não atende a algumas das minhas necessidades básicas (de amor, de pertencimento, de aceitação etc.), eu começo a operar de forma errada e o ódio é uma manifestação disso. 

Como as redes sociais podem ajudar no processo de inspiração do outro? 
Aliás, as redes sociais ajudam ou atrapalham? As redes sociais ajudam quando contam histórias genuínas e verdadeiras. Quando elas mostram a realidade das pessoas, que têm momentos bons e ruins, sucessos e fracassos, alegrias e tristezas. Isso gera identificação, empatia e a sensação de ‘não estou sozinho’. Quando, nas redes sociais, as pessoas se apresentam como perfeitas e com vidas perfeitas, o sentimento gerado é de angústia e solidão. Eu não me identifico com o outro e tenho a sensação de que somente a minha vida não é perfeita. 

Como os pais podem vencer a barreira de não ser autoritários com filhos rebeldes? 
Novamente, a rebeldia é, muitas vezes, a expressão de uma necessidade não atendida (de liberdade, de descoberta da identidade, de segurança familiar). É a forma como muitos jovens encontram de se colocar no mundo e se fazerem visíveis, uma vez que, muitas vezes, suas vozes não são ouvidas de forma natural (desvalorizamos seus sentimentos por serem jovens demais, achamos que não sabem nada do mundo, julgamos que só vão entender a realidade quando forem adultos). Pais muitas vezes não são empáticos com o momento de vida que os adolescentes estão vivendo, não valorizam o que eles têm a dizer e não permitem que eles se manifestem da forma que gostariam. Como resposta, vem a rebeldia. Quando isso acontece, os pais precisam reconstruir essa ponte com abertura e vulnerabilidade. E precisam, genuinamente, enxergar, ouvir e valorizar seus filhos. 

Existe algum treinamento para desenvolver a competência empática?
No geral, a empatia não tem sido ensinada em nenhuma instituição formal, como nas escolas e universidades, por exemplo. O que existem hoje são programas livres (palestras, workshops, retiros), que oferecem espaços para reflexão e prática tanto da empatia, como de outras competências socioemocionais. Ainda é preciso querer desenvolver esse lado mais humano e se dedicar a isso. Pela “ Revolução da Empatia” (veja box), nós oferecemos encontros abertos sobre empatia ou que podem ser realizados em escolas, empresas, grupos de pais organizados etc.

Você desenvolveu um exercício chamado Roda da Empatia. Como funciona?
É um diagrama, com quatro grandes dimensões e três aspectos em cada dimensão, para preencher. A roda também apresenta círculos concêntricos, que funcionam como uma ‘régua’ de autoavaliação para cada um dos aspectos apresentados. A ideia é que, para cada um dos 12 aspectos, você avalie se está indo bem ou não naquilo, e pintar, com lápis de cor, a quantidade de espaços referentes à sua avaliação (sendo que um espaço pintado é a pior avaliação que você poderia se dar e dez espaços pintados, a melhor). Ao final do exercício, terá um ‘mapa’ de como anda a empatia na sua vida. Alguns aspectos terão muitos espacinhos pintados, outros, nem tanto. Isso é normal e vai ajudá-lo a enxergar em quais dimensões e aspectos você já está fazendo um bom trabalho e quais representam pontos de atenção, nos quais você precisa exercitar mais a empatia.

A Revolução da Empatia 
O mundo vive um momento de transição, e a humanidade luta para superar velhos modelos e viver de forma mais equilibrada e feliz. Todos querem um mundo com menos guerras, violência, desigualdades, injustiças. Todos querem um mundo mais pacífico, colaborativo e sustentável. E, para que esse novo mundo possa florescer e se sustentar, uma série de novas competências será exigida de nós. A empatia é umas das principais. O projeto ‘Revolução da Empatia’ surgiu da necessidade de ampliarmos nossa visão sobre a empatia e compreendermos como ela pode nos ajudar a transformar nossas relações, nossas empresas e a sociedade no todo. 

O projeto cria e facilita, de forma aberta, palestras, workshops e experiências de empatia, despertando um novo olhar sobre nossas relações e sobre o nosso papel no mundo. Também ajuda empresas e iniciativas de todos os setores (por meio de workshops, experiências, criação de conteúdo ou processos de consultoria) a enxergarem o potencial da empatia como ferramenta de inovação, conexão com clientes e definição de propósito. “Acreditamos que a empatia pode ser aplicada a qualquer contexto, uma vez que toda organização é formada por pessoas e está a serviço delas”, explica Tati Fukamati. 

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