ENTREVISTA
27/04/2018    Por João Felipe Cândido
Ricky Ribeiro
Conheça a inspiradora jornada do morador de Alphaville, diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica. Mesmo sem se mover, ele criou o maior portal de mobilidade urbana sustentável do País, e lançou um livro
foto: Divulgação

Foi em 2008, durante a prática de exercícios físicos na academia, que Ricky Ribeiro, 38, percebeu que algo não estava bem. Não conseguia dobrar sua perna para trás normalmente. Preocupado, procurou ajuda médica. Seis meses depois veio o resultado do diagnóstico: era portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença rara e sem cura, que compromete os neurônios que controlam os movimentos. Com o passar do tempo, os músculos atrofiam e, gradativamente, o corpo vai paralisando. A mente não. Raciocínio, visão, audição, olfato, paladar e tato são preservados. O processo de evolução da doença aconteceu aos poucos. Em 2010, Ricky já não andava mais.

Para se comunicar, passou a utilizar um leitor óptico que o permitia usar o computador, controlado pelos olhos e sobrancelhas, método semelhante ao adotado pelo físico Stephen Hawking, também portador de ELA. “Desde que recebi o diagnóstico, Hawking sempre foi uma referência e fonte de inspiração. Ele me mostrou que é possível realizar grandes feitos, mesmo com as limitações impostas pela doença, e viver muito tempo”, diz.

Graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp), obteve mestrado em Sustentabilidade pela Universidade Politécnica da Catalunha (UPC) e MBA Executivo pela Universidade de Barcelona (UB). Ricky se considera um empreendedor social. Hoje, está à frente do premiado site Mobilize Brasil, especializado em mobilidade urbana sustentável. No fim do ano passado, em parceria com a escritora e roteirista Gisele Mirabai, lançou o livro Movido Pela Mente (Editora Mobilize), no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Mais de quatrocentas pessoas, de vários Estados do País, prestigiaram o evento. A obra tem prefácio assinado pela deputada federal Mara Gabrilli, que ficou tetraplégica após um acidente automobilístico.

Na entrevista a seguir, concedida à Viva S/A por e-mail, Ricky fala sobre sua rotina, os desafios da mobilidade urbana brasileira, a experiência de conhecer o médium João de Deus e o início de sua história de amor.

Como é a sua rotina?
Atualmente trabalho na área de sustentabilidade corporativa de uma empresa multinacional de consultoria, a EY, e coordeno o Mobilize Brasil, portal que fundei em 2011. No ano passado, escrevi o livro Movido pela Mente, em conjunto com a escritora Gisele Mirabai, e um capítulo sobre caminhabilidade para uma publicação da FGV, além de dar início a um boletim semanal sobre mobilidade urbana na rádio. Também acho muito importante ter momentos de lazer, ficar com a família, encontrar os amigos, e namorar. O tempo é precioso. Para dar conta de tudo, minha principal arma é a disciplina, e meu escudo é minha família, assim como todos os profissionais que cuidam de mim. Todo dia, às oito horas da manhã, tenho fisioterapia. Depois da sessão, as técnicas de enfermagem se encarregam dos meus cuidados pessoais. Vou para o computador por volta de onze. Trabalho direto até às dezesseis, quando tenho fisioterapia novamente. Volto para o computador às dezessete, e fico trabalhando até tarde. Dependendo do dia, faço algumas pausas para resolver questões pessoais. Eu gosto de sair do computador às 22, para assistir a filmes, ver o jogo do Corinthians, ou ficar com a namorada, mas frequentemente trabalho até depois da meia-noite. Vale lembrar que, desde que fiz a gastrostomia, não preciso parar para as refeições, já que o alimento entra direto no meu estômago. 

De que maneira surgiu a ideia de escrever o livro Movido Pela Mente , em parceria com a escritora Gisele Mirabai, e como foi o processo de produção?

Desde que fundei o Mobilize, inúmeras pessoas comentavam que eu deveria escrever um livro sobre minha vida e a forma como encarava a doença. Durante muitos anos eu rejeitei a ideia, dizendo que me sentia mais útil trabalhando com mobilidade urbana sustentável. O que me fez mudar de ideia foi conhecer a premiada escritora Gisele Mirabai. Eu tinha dois grandes desejos para que fosse realizado o livro: conscientizar os leitores para temas como mobilidade urbana e sustentabilidade e gerar receita para o Mobilize que é uma organização social. Gisele topou. Durante meses escrevi, com os olhos, relatos da minha vida e reflexões sobre temas de meu interesse. Gisele realizou pesquisas, conversou com pessoas próximas a mim, definiu a estrutura e transformou meus relatos em literatura. A renda obtida com a venda dos livros é destinada ao Mobilize. O livro está disponível no site www.mobilize.org.br/livro. 

Qual é a grande mensagem do livro?
Acredito que a grande mensagem seja inspirar as pessoas a não desistirem nunca. Eu recebi uma sentença de morte chamada esclerose lateral amiotrófica e me recusei a cumpri-la. Apesar das limitações, eu não sou a minha doença, sou o que escolhi ser. A minha história também é o pano de fundo para abordar temas muito mais importantes para a humanidade, como sustentabilidade, mobilidade urbana e acessibilidade. Além disso, pode oferecer valiosas dicas para familiares, amigos e portadores de ELA e de outras doenças complexas.

Você está à frente do portal Mobilize, ligado à mobilidade urbana. Hoje, qual é o maior desafio desse setor no Brasil e como ele pode ser solucionado?
O maior desafio de mobilidade urbana atualmente no Brasil é a mudança de mentalidade, especialmente dos gestores públicos. A opção pelo automóvel - que parecia ser a resposta eficiente do século XX à necessidade de circulação nas cidades - levou à paralisia do trânsito, com desperdício de tempo e de combustível, além dos problemas ambientais de poluição atmosférica, de saúde pública, e de excessiva ocupação do espaço público. A mobilidade urbana está diretamente relacionada à competitividade das cidades e à qualidade de vida de seus habitantes. O Brasil vem avançando muito em relação à legislação nessa área, mas, infelizmente, há um abismo entre as leis e a realidade. Tirar do papel e colocar em prática os recentes avanços legais é outro grande desafio.

Em um país em que o governo incentiva a produção e consumo de veículos, com poucos investimentos em infraestrutura e transporte público eficiente, como encontrar uma equação que possa equilibrar o iminente caos?
Não há outra saída para evitar o caos, a não ser investir em transporte público de qualidade, estrutura para os modos ativos de deslocamentos (calçadas e ciclovias) e melhor planejamento urbano. Também cabe à população uma mudança de atitude, ao adotar novos hábitos e cobrar o poder público. As pessoas podem ser mais gentis com a cidade na hora de escolher a forma de se deslocar. Tem gente que usa o carro igual sapato, não sai de casa sem ele. Quando for sair, pensar se não daria para fazer o trajeto a pé, de bicicleta, de transporte público ou de uma combinação de modos. Além disso, o cidadão pode fazer parte de coletivos e organizações que defendam a mobilidade sustentável, participar de audiências públicas e conselhos municipais e denunciar problemas de mobilidade por meio de aplicativos especializados ou do próprio portal Mobilize Brasil, entre outras ações.

Em 2016, a prefeitura de São Paulo oficializou o fechamento da Avenida Paulista para veículos aos domingos e feriados. Recentemente, você esteve lá e acompanhou de perto o resultado do projeto Programa Ruas Abertas, implantado na gestão de Fernando Haddad. Quais foram as suas impressões?
A Paulista aberta à população, livre dos carros, foi uma luta minha e do Mobilize, além de outras organizações. Lembro que, na primeira vez em que conversamos sobre isso, parecia um sonho muito distante, que felizmente se tornou realidade. Foi emocionante vivenciar, em São Paulo, pessoas de todos os tipos e classes ocupando os espaços públicos e convivendo em uma atmosfera incrível e muito agradável. Os artistas de rua eram uma atração à parte. Sem carros, a Paulista virou o paraíso da mobilidade ativa. Milhares de pessoas a pé, de bicicleta, skate, patins, e até de cadeira de rodas, assim como eu. De fato, a acessibilidade é um ponto alto da avenida, com seu piso regular, calçadas largas, bem conservadas e com rampas para cadeira de rodas. Uma pena o resto da cidade não ser assim.

O astrofísico britânico Stephen Hawking é uma inspiração para você?
Stephen Hawking, desde que tive o diagnóstico, sempre foi uma referência e fonte de inspiração. Ele atribuía a longevidade à sua teimosia. Nesse sentido, sou igualmente teimoso e gosto de contrariar as estatísticas e expectativas de evolução da doença. Além disso, ele abriu caminho para outros portadores de ELA, como eu, já que muitas tecnologias disponíveis hoje foram desenvolvidas pensando no caso dele.
Você esteve em Abadiânia, Goiás, e conheceu o médium curador espírita João de Deus. Como foi a experiência? Foi incrível. A Casa Dom Inácio, em Abadiânia, é um local especial, com boas energias. Na parede do amplo galpão onde as pessoas esperam pelo atendimento, há imagens de líderes espirituais de diferentes religiões, o que mostra ser um ambiente com tolerância e respeito. O médium João transmite serenidade, segurança e paz, o que contribuiu para eu enfrentar o diagnóstico mais forte e confiante.

Quando e como começou a história de amor entre você e a Cristiane Inácio?
Em janeiro de 2016, minha mãe teve um problema de saúde e precisou ir ao hospital às pressas, acompanhada do meu pai. Como existe uma regra do home care que o paciente, no caso eu, não pode ficar desacompanhado, pedi socorro aos meus amigos e um deles veio para a minha casa. Depois desse episódio, minha mãe ficou preocupada e percebeu que seria bom termos alguém com quem contar nessas e em outras horas. Decidimos, então, abrir uma vaga de estágio para estudante de fisioterapia ou enfermagem atuar em casa. Divulgamos a vaga e entrevistamos algumas pessoas, mas na hora de optarmos por alguém, minha prima decidiu vir morar em casa, o que tornou desnecessária a contratação. Apesar do processo seletivo não ter continuidade, eu mantive contato com a Cristy, que foi uma das candidatas, e nos tornamos amigos. Como ela fazia faculdade a quinhentos metros de casa, passou a me visitar de vez em quando depois das aulas. O sentimento entre nós foi aumentando até que começamos a namorar. Nesses dois anos, Cristy tem sido uma ótima companheira. Além disso, ela é muito amorosa e tem um grande coração.

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