ENTREVISTA
27/03/2018    Por João Felipe Cândido
Gaetano Crupi
O presidente da biofarmacêutica Bristol-Myers Squibb (BMS) no Brasil garante que, cerca de 25% do faturamento global da companhia, tem sido investido em pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos. O resultado tem sido a transformação na vida dos pacientes em todo o mundo no campo de doenças oncológicas, cardiovasculares, nas imunodeficiências e fibroses 
foto: Divulgação

Segundo relatório publicado no início de fevereiro deste ano pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar cerca de um milhão e duzentos mil novos casos da doença nos próximos dois anos. Se continuar nesse ritmo, o câncer pode ultrapassar as doenças cardiovasculares como a principal causa de morte no País até 2030. Transformar o câncer em uma doença crônica se tornou o grande objetivo da biofarmacêutica global Bristol-Myers Squibb, que atua no Brasil há mais de setenta anos. Voltada à pesquisa e desenvolvimento de medicamentos inovadores, para ajudar milhões de pacientes em todo o mundo no campo de doenças graves, a companhia luta para aumentar a expectativa de sobrevida de pacientes que enfrentam os diversos tipos de câncer, por meio de um tipo de tratamento que faz o próprio corpo “atacar os tumores”: a imuno-oncologia. “Nos últimos anos, conquistamos grandes avanços, mas acreditamos que o nosso verdadeiro impacto nacional na vida destas pessoas ainda está por vir”, ressalta Gaetano Crupi, sessenta, presidente da Bristol-Myers Squibb no Brasil. A seguir, alguns momentos da entrevista com o executivo.

Em 2012, o senhor assumiu a presidência da Bristol-Myers Squibb no Brasil. Qual é o balanço de sua gestão até o momento?
O balanço é muito positivo. Nestes cinco anos e meio, olho para trás e vejo que cumpri todos os objetivos que me foram passados desde a minha contratação; porém, não classificaria os objetivos alcançados como destaque da minha gestão. Para mim, a relevância destes anos se resume da seguinte forma: primeiramente, o benefício que trouxemos aos pacientes com o lançamento do mais inovador tratamento para combater o
câncer no País: a imuno-oncologia. Fomos a primeira empresa a disponibilizar esses medicamentos no Brasil [são três aprovados até o momento: Yervoy (ipilimumabe), Opdivo (nivolumabe) e Empliciti (elotuzumabe)], disponíveis aos pacientes para o tratamento de sete dierentes tipos de câncer. Além de tornar a BMS ser pioneira nesta área, conduzimos a execução da 1ª Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP), realizada entre uma multinacional e o Ministério da Saúde para o combate à AIDS. A iniciativa possibilitará ao Brasil produzir o medicamento Reyataz (sulfato de atazanavir) por meio do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Também lançamos o medicamento Daklinza (daclatasvir), posicionando a Bristol-Myers Squibb como a primeira empresa do setor a obter a aprovação de um medicamento inovador para o combate à hepatite C e sua incorporação ao Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde. E com enorme satisfação, pois são grandes êxitos em parceria com o governo brasileiro pela saúde dos cidadãos brasileiros. Em segundo lugar, estão os colaboradores talentosos da BMS no Brasil, uma equipe de que tenho muito orgulho em fazer parte, pois é cheia de energia e compartilha uma visão transformadora, uma estratégia clara e uma incansável execução dos nossos objetivos.

De que maneira o senhor avalia o seu modelo de gestão?
Se eu pudesse resumir em uma palavra o meu modelo de gestão, essa seria “inspirador”. Não acredito no modelo de gestão autoritário e não participativo. As pessoas que dedicarão suas vidas profissionais à BMS têm de se sentir inspiradas para alcançar um objetivo em comum (atualmente, são 350 funcionários somente no Brasil). Procuro aplicar o que chamo de as Dez maiores lições que norteiam a minha vida e são elas:
10.) Aplique a sequência certa: em primeiro lugar estão as pessoas, pois no final do dia são elas que entregam os resultados.
9.) Estabeleça o tom como um líder energizante, seja o maestro.
8.) Lidere a execução do negócio por meio da mudança de comportamento e evite as armadilhas das atividades rotineiras.
7.) Seja um líder e um liderado inclusivo.
6.) Comunique-se: escute mais e seja um contador de histórias.
5.) Saia da sua zona de conforto e desenvolva uma mentalidade de crescimento.
4.) Lembre-se que sua carreira não é uma corrida de cem metros rasos, mas sim uma maratona.
3.) Mantenha as três dimensões da vida (físico, mente/emoção e espiritual) em equilíbrio. Renove-se e cuide de você mesmo, para que possa cuidar melhor dos outros.
2.) Conheça a si mesmo, defina a pessoa que você realmente é e o que deseja.
1.)Tenha sucesso e mais sucesso e mais sucesso, mas crie filhos maravilhosos.
Esta é uma maneira de compartilhar a minha experiência profissional de mais de quarenta anos na indústria farmacêutica e de ajudar as pessoas. Também me dedico a desenvolver um ambiente diverso em todos os sentidos na BMS, com mulheres na liderança de várias áreas, fazendo mentoring reverso com millennials e ampliando sempre o espaço para a população negra. Acredito que a diversidade é um diferencial competitivo importante e que fará cada vez mais diferença no desempenho das empresas.

Conte-nos como costuma ser a sua rotina
Creio que por ter sido militar (Marinha do Brasil), tornei-me uma pessoa muito disciplinada e tenho uma rotina pré-definida de segunda à sexta-feira, na qual empreendo 80% do tempo. As 5h15 faço atividade física, aeróbica e postural. Na sequência, dedico um tempo para meditação que envolve leitura bíblica e um diário. Sou adepto do jejum intermitente como estilo de vida e fico 16 horas em jejum, somente bebendo água e café, e tenho oito horas para me alimentar sem exageros. Devido ao horário flexível na BMS, geralmente chego ao escritório por volta das 9h/9h30 e saio entre 20h/20h30. Aos fins de semana procuro relaxar, conhecer novos restaurantes, ir ao cinema e ir a Alphaville aos domingos para participar da Igreja Batista Memorial.

Dados divulgados pela ONU afirmam que, até o final deste século, o mundo terá mais de 21 milhões de pessoas com cem anos ou mais, e o Brasil ampliará a sua população centenária para além de 110 vezes. Gradativamente, o desenvolvimento de novos medicamentos deverá contribuir para esse aumento da longevidade?
Não tenho dúvida disso. A Bristol-Myers Squibb, ciente da perspectiva dessa mudança importante na população, busca se antecipar às necessidades dos pacientes que enfrentam doenças graves, e segue empenhada em liderar novas áreas na saúde. Além disso, com a ampliação da expectativa de vida e um número crescente de pessoas centenárias, será necessário superar obstáculos significativos, como disponibilizar o acesso a essas novas tecnologias, manter um olhar atento sobre as novas doenças em decorrência deste prolongamento e como combatê-las. Vivemos um momento em que a ciência se move de forma extremamente rápida, e todas as áreas em que a BMS atua são cada vez mais competitivas. Por isso é preciso inovar constantemente, mas também evoluir na forma de lidar com o mercado e interagir com os pagadores e prescritores. Somente trabalhando em parceria com todos os stakeholders será possível prever, diagnosticar e possibilitar acesso ao tratamento correto desta população.

Estudos internacionais também demonstram que, de 1986 a 2000, 40% do aumento da expectativa de vida ocorreu em razão de remédios inovadores, que diminuíram em 33% a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares e foram responsáveis por 83% do aumento do tempo de vida dos pacientes com câncer. Diante desse contexto, qual tem sido o papel da Bristol-Myers Squibb?
Somos uma empresa que investe cerca de 25% do faturamento global na pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos, e estamos determinados a descobrir e disponibilizar produtos que tenham o potencial de transformar a vida dos pacientes. Atualmente estamos investindo em áreas em que temos a oportunidade de fazer uma diferença significativa na vida dos pacientes, e contamos com um pipeline (funil de vendas) de medicamentos promissores nas áreas de oncologia, imunociência, cardiovascular e fibrose. Nos últimos anos conquistamos grandes avanços, mas acreditamos que o nosso verdadeiro impacto na vida destas pessoas ainda está por vir.

Uma das grandes apostas da medicina tem sido a área da imuno-oncologia, um tipo de tratamento que faz o próprio corpo “atacar os tumores”. A Bristol-Myers Squibb acompanha avanços nesse tipo de método?
Como andam as pesquisas e os resultados? Nenhuma empresa tem mais experiência na imuno-oncologia do que a BMS. Com mais de duzentos e cinquenta mil pacientes tratados com os nossos medicamentos, nós mudamos a expectativa de sobrevida dos pacientes com câncer e estamos apenas no começo. Somos pioneiros ao lançar o primeiro imuno-oncológico no mercado, o Yervoy (ipilimumabe). O medicamento está disponível no Brasil desde 2012 para o tratamento do melanoma avançado e metastático. Em 2016, recebemos a aprovação do primeiro imuno-oncológico para tratar o câncer de pulmão, o Opdivo (nivolumabe), e que, atualmente, está aprovado para tratar outros tipos de câncer no país: melanoma, câncer renal, câncer de bexiga, câncer de cabeça e pescoço, e linfoma de Hodgkin. Além disso, a empresa também avança na combinação de imuno-oncológicos, sendo, atualmente, a única capaz de tratar todos os tipos e estágios do melanoma, o tipo mais letal do câncer de pele, por meio da única combinação de imuno-oncológicos (Opdivo + Yervoy) aprovada no Brasil. Possuímos ainda um terceiro imuno-oncológico, o Empliciti (elotuzumabe), para tratar o mieloma múltiplo, uma doença hematológica. Nós trabalhamos com foco total nos pacientes e na qualidade de vida dessas pessoas.

Segundo relatório publicado no início de fevereiro deste ano pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar cerca de 1,2 milhão de novos casos dessa doença nos próximos dois anos. Se continuar nesse ritmo, o câncer pode ultrapassar as doenças cardiovasculares como a principal causa de morte no país até 2030. É possível afirmar que, hoje, a doença é o maior desafio da companhia?
Sem a menor sombra de dúvida. E o nosso objetivo é transformar o câncer em uma doença crônica. Neste processo de transformação da Bristol-Myers Squibb para torná-la uma empresa biotecnológica de especialidades, estamos nos concentrando mais nesta área, que ainda possui necessidades médicas não atendidas. Temos o papel de ampliar nossos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, fazer parcerias com instituições, aquisições de pequenas empresas de biotecnologia e tornar o nosso pipeline inovador ainda mais robusto. Nos EUA, por exemplo, o Opdivo (nivolumabe) já tem 14 aprovações para 9 tipos de câncer como melanoma, câncer de pulmão, câncer renal, linfoma de Hodgkin, câncer de cabeça e pescoço, câncer de bexiga, câncer colorretal, câncer gástrico e câncer de fígado. E, como eu disse, isso é só o começo, porque temos mais de 18 moléculas em estudo para mais de cinquenta tipos de câncer.


Top 5