ENTREVISTA
26/01/2018    Por João Felipe Cândido
Rosa Alegria
Por qual motivo as escolas ensinam o passado e quase nada sobre o que vai acontecer? O que esperar para o futuro de seus filhos? Conversamos com uma das maiores autoridades em futurismo do Brasil. 

Acredite, mesmo diante de uma mudança radical a caminho, nem tudo está perdido. Já é possível até vislumbrar um futuro bem melhor. A seguir, entenda os motivos

Há cerca de duas décadas, quando abandonou a bemsucedida carreira de executiva, Rosa Alegria, 60, estava decidida a voltar para a universidade. Seu propósito era muito claro: se tornar uma futurista, profissional que vive o hoje, preocupado com o amanhã. É exatamente isso que Rosa tem feito nos últimos anos. Estudiosa e entusiasta de uma sociedade mais justa, tornou-se pesquisadora de tendências e mestre em estudos do futuro pela Universidade de Houston, nos Estados Unidos. Hoje, está à frente de inúmeros projetos que envolvem a gestão do futuro. Também é diretora-fundadora da Perspektiva, consultoria especializada em pesquisa de tendências, desenvolvimento de cenários e criação de estratégias. Seu próximo passo é atuar cada vez mais no universo da educação, um dos temas que ela aborda na entrevista concedida a Viva S/A com exclusividade.

O futuro é logo ali
“Existe algo em mim que descobri muito cedo: sempre fui curiosa e desde a infância estava em busca do novo. Ficava olhando para o céu e queria estar lá. Pensava: ‘o que que está acontecendo lá?’. Queria ser astronauta. Fiz uma carreira como executiva muito bem-sucedida e chegou um momento que acabou. Cansei daquele universo. Sabia que poderia ir àquele espaço que eu tanto desejei um dia. Estava diante de um descontentamento então, no fim da década de noventa. Desejava algo novo que ninguém fazia ainda. Buscava um caminho em que eu pudesse fazer a diferença. Por intermédio de uma amiga, descobri uma revista que abordava o futurismo, a The Futurist. Lendo as páginas daquela revista, vi que o tema envolvia ciência e que seria possível estudar, se especializar, fazer mestrado. ‘Eu quero isso’. Fui para os Estados Unidos, fiz mestrado por dois anos e trilhei esse caminho como futurista. Sou pioneira nessa profissão no Brasil há duas décadas”.

Futurólogo, não
“Há quem pense que futurista é o mesmo que futurólogo; mas não gosto desse termo, porque o ‘ólogo’ remete a temas ligados à adivinhação. Em nossa história, houve muitos futurólogos, que podem ser chamados de cartomantes ou oráculos, por exemplo. Respeito, não sou contra, mas o futurismo é mais ligado ao campo científico”.

As empresas estão prontas para o futuro?
“Sou consultora, atuo como palestrante e facilitadora de inovação. Facilito grupos dentro das empresas para criarem novas ideias, se prepararem para o futuro. Aplico o futurismo nas empresas. Leia-se: preciso remar o tempo todo contra a correnteza, porque as empresas não estão prontas para o futuro. Elas pensam muito em curto prazo. É uma questão global. Existem estudos que mostram isso. O curto prazo é uma doença, um entrave, porque o medo impera sobre a coragem de inovar. O futurismo é você pensar diferente para planejar diferente. O futurismo incorpora um novo tempo e nos faz pensar longe. Aí, a pergunta que se faz: ‘ah, o que adianta eu pensar longe? Vou viajar para 2050, mas preciso pagar o salário da minha equipe este mês’. Quando você alcança o horizonte em longo prazo, você volta para o presente com um novo repertório. E daí você vê que o presente já pode ser diferente. Qual é a base, então, da prospectiva do futurismo? É você estudar o futuro, trazer coisas dele para você mudar o seu presente. Não adianta o futuro ficar lá no lugar dele. Ele é um princípio de mudança agora. Essa é a lógica da prospectiva. Normalmente, as pessoas estão acomodadas no presente. O futurista tem o papel de incomodar, no bom sentido, para que as pessoas vejam aquilo que não estão vendo. Nós estimulamos o olhar para a novidade”.

O futurismo já aparece por aqui
“Nesse contexto de futurismo, alguns bancos brasileiros, como o Itaú e o Bradesco, já investem em algumas práticas de futurismo. As fintechs, que são as startups de tecnologia que atuam no setor financeiro, a exemplo do Nubank, também estão arrebentando por aí. A indústria automobilística está começando a acordar. Hoje, praticamente todas as montadoras planejam ou produzem carros autônomos. A Embraer é uma empresa que também adota as práticas do futurismo, tem um departamento de pesquisa só para isso. As empresas de energia trabalham com cenários a longo prazo, a exemplo da Petrobrás. Para empresas que dizem ‘nós projetamos o cenários para daqui vinte anos’, costumo mostrar que isso não é o futurismo como um todo. É parte dele”.

Práticas do futurismo
“Para aplicar os processos do futurismo, existe um caminho do começo ao fim. É incluir na cultura da empresa todo o processo desde a busca da informação até a ação. Informação que vai para ação. E o que é uma ação proveniente do futurismo? É o que faz você se antecipar ao concorrente, por exemplo. Você não é um seguidor no mercado. Você é o trendsetter (criador de tendências). Para você se tornar um trendsetter, como é a Apple ou a Tesla, e outras grandes empresas, como a startup Uber, é preciso se antecipar ao futuro. Você tem que descobrir coisas que os outros não descobriram ainda. São poucas as empresas que aplicam as práticas do futurismo, que ainda não foi descoberto como deveria ser. Não é um planejamento estratégico”.

Mudanças na educação
“Não sou educadora, mas, como futurista, posso garantir que nós observamos os fenômenos e o ambiente da mudança. Quando o assunto é a educação, a meu ver, a escola não tem preparado os alunos para compreenderem as mudanças que já aconteceram e que ainda irão acontecer. Só faz a pergunta: ‘o que você aprendeu na história?’, ou ‘qual a data disso ou daquilo?’. Temos aprendido muito sobre o passado, mas não aprendemos a imaginar o tempo adiante e qual o seu papel nesse mundo. É como se o aluno não tivesse nada para oferecer. É tudo de cima para baixo. O mundo tem mudado, mas o nosso jeito de ensinar não mudou”.

Projeto Millennium
“O Projeto Millennium é o maior projeto de futuristas do mundo. É uma rede de pesquisas que o professor Arnoldo de Hoyos, da PUC-SP e eu representamos no Brasil. Em 1996, duas pessoas, que ainda estão vivas e são símbolos do futurismo mundial, se reuniram. Um deles é Theodore Gordon, que fundou o futurismo no mundo. E o outro é Jerome Glenn. Eles resolveram adotar um caminho, inovador naquela época, em 1996, que era utilizar a inteligência coletiva para a adversidade, para discutir o futuro, como o mundo estava vivendo, o que estava acontecendo no planeta e o que precisava ser feito para ele ser melhor. Chamaram vários pensadores e, depois de muito estudo, chegaram a 15 desafios. Para o ser humano e para o meio ambiente ficarem melhores, nós teríamos de enfrentar esses 15 desafios. A partir daí, começaram a atualizar, pesquisar pelo mundo inteiro, respostas para essas perguntas. A cada dois anos, editam um relatório chamado Estado do Futuro. As pesquisas sobre o futuro realizadas pelo Projeto Millennium mostram que a maioria destes problemas pode ser prevenida, e que é possível um futuro bem melhor do que hoje. Inovações sociais e políticas, avanços tecnológicos e científicos, novos modelos de liderança estão surgindo pelo mundo. As interações entre as futuras inteligências artificiais, um sem-número de novas formas de vida da biologia sintética, a proliferação de assembleias nanomoleculares e a robótica poderão produzir um futuro apenas reconhecível pela ficção cientifica de hoje. O futuro pode ser muito melhor do que a maioria dos pessimistas pensa, mas também poderá ser muito pior do que a maioria dos otimistas está disposta a explorar. Necessitamos de acordos sérios, coerentes e integrados, de megaproblemas e oportunidades, para identificar e implementar estratégias na escala necessária para fazer frente aos desafios globais. Esse relatório deve ser utilizado como uma referência para promover tal entendimento”.

Conhecer o futuro
“Aplicar as estratégias do futurismo nas escolas vai trazer inúmeros benefícios, como incentivar a imaginação, o empreendedorismo e, acima de tudo, preparar as crianças para a vida. O que é a vida? A vida é incerteza, é mudança, é complexidade. A escola prepara a criança para essas incertezas? Como você vai viver num ambiente incerto? Como você vai aprender a decidir sem sofrer? Aprender a viver criativamente só olhando para o futuro. Aprender a complexidade só olhando para o futuro. As crianças não são preparadas para isso. Se você visualiza aquilo que quer ser, já nutre sua imaginação com ações. Os alunos precisam ser incentivados. Costumamos questionar as crianças e jovens da seguinte forma: ‘o que você quer ser quando crescer?’. Eles respondem: ‘quero ser cantor, professor, advogado, médico’, e fica por isso mesmo. Não existe um processo que os ajude a buscar um caminho. Outro detalhe: aquilo que você quer ser quando crescer pode nem existir mais daqui a três ou quatro anos. Temos de mostrar aos alunos que eles não podem ficar engessados em apenas um desejo. Creio que o futurismo pode ajudar, e muito, a criança a se preparar para a vida. Pretendo trazer para o Brasil o Teach The Future, uma plataforma de capacitação de professores para ensinar o futuro. Dois países já têm essa plataforma, a Holanda e a Austrália. Temos de fazer perguntas. Não incentivamos as perguntas ainda. Damos nota zero ou dez porque o aluno não sabe a resposta. ‘Você fracassou! Não respondeu à prova, deixou em branco, respondeu errado’. Apenas, pensar na resposta já limita totalmente o aluno a ampliar seu universo criativo. Estimular a fazer perguntas é tudo. Porque, por meio das perguntas, abre-se um campo de possibilidades. Imagine na escola, você incentivar e fazer perguntas do tipo ‘e se...?’, ‘por que não...?’. Pergunte a um adulto: ‘o que você deixou de ser quando cresceu?’. Certamente deixamos de ser curiosos, corajosos, ficamos com medo. A pergunta tem de fazer parte do universo cognitivo; talvez elas sejam até mais importantes do que as respostas. Como o futuro é inexistente, como trafegar no desconhecido? Com respostas? Não. Com perguntas!”. 

Futuro dos filhos
“O que é ser alguém na vida? Talvez ser alguém na vida na época do pós-guerra fosse uma coisa. Hoje, é outra. Ser alguém na vida para quem saiu de uma guerra, era quando eu não queria que o meu filho passasse pelo mesmo sofrimento que passei. Ser alguém na vida já significou se formar numa faculdade, ter um diploma, constituir família e ganhar muito dinheiro. Essas coisas estão cada vez mais sendo derrubadas. Creio que os pais da atual sociedade deveriam desejar que seus filhos fossem felizes. O que fazer para que essa nova geração seja feliz? Promover uma sociedade nova que não pense como se pensava antes. Não podemos mais formar indivíduos para que sejam apenas produtivos. Basta observarmos os índices de suicídio. O Brasil está entre os expoentes do mundo em índices de suicídio. Atualmente, é a quarta maior causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos, segundo dados do Ministério da Saúde. Logo o Brasil, considerado um país ‘alegre e do carnaval’. O que está acontecendo, se temos tantas máquinas, tanta inovação, e as pessoas estão se matando? O progresso não tem correspondência com felicidade. Tem de se redefinir o que é progresso? O que é ser alguém na vida? O que é ser rico? Talvez ser rico seja estar na praia ou num rio limpo, pescando um peixe fresquinho e vivendo numa casinha simples e não enfrentar o trânsito e o ar impróprio da marginal. Não precisar blindar seu carro para não ser sequestrado ou viver num condomínio com um muro de cinco metros. Uma nova geração está a caminho e vai trazer um novo mundo. Será a geração Alpha. São os que estão nascendo agora”.

Mudanças no mercado de trabalho
“Vários estudos indicam que, se nada for feito por parte dos sistemas governamentais, econômicos, tecnológicos e educacionais, metade da população mundial poderá estar desempregada em 2050. Essas transformações do mercado de trabalho ganharam destaque na agenda do recente Fórum Mundial Econômico, que aconteceu em Davos, na Suíça. Somente no Brasil, de acordo com estimativas da consultoria McKinsey, 16 milhões de trabalhadores serão afetados pela automação até 2030. Desde 2010, o número de robôs industriais cresce a uma taxa de nove por cento ao ano, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). O Projeto Millennium desenvolveu um estudo que reuniu diversos especialistas e lideranças em diferentes países, para identificar estratégias que possam responder a esse desafio. Estamos compartilhando esses dados a várias organizações mundiais para que possam tomar melhores decisões e criar saídas criativas e sustentáveis para essa situação. Se conseguirmos fazer essa transição de uma forma planejada, poderemos ter uma sociedade mais justa e menos desigual, em que os robôs e todos os sistemas de inteligência artificial estarão substituindo muito do trabalho humano, e os humanos ficarão livres para desenvolver novas profissões emparelhadas com as novas tecnologias e até mesmo resgatar profissões antigas que só os humanos podem desempenhar bem. Estamos falando dos 3 Cs - Computação - Cuidado - Clean Energy (é aquela que vem de recursos naturais que são naturalmente reabastecidos, como sol, vento, chuva, marés e energia geotérmica). Esses são os três vetores de expansão das novas profissões no mercado de trabalho daqui em diante”.

Exemplos que têm dado certo
“Existem movimentos de novas economias: compartilhada, colaborativa, circular, entre outras que estão dando espaço a novos modelos de trabalho, sem hierarquia. A era da Internet já não permite mais os modelos antigos de gestão do ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’. Estamos vendo um verdadeiro êxodo de talentos deixando o mundo corporativo para abrir seu próprio negócio. Alguns exemplos são o modelo da empresa livre, que ainda está em gestação; os modelos matriciais; os coworkings, que proliferam a cada dia; modelos de organização em rede (tem o exemplo da rede Humana), entre outros. Todos eles têm se empenhado em criar uma funcionalidade que supere os velhos modelos do comando de cima para baixo”.

Não conheço o futuro, mas posso imaginá-lo
“Imagino que a necessidade de preparar as pessoas para a vida em constante mudança terá sido compreendida e as escolas passarão a implementar estudos e experiências para criar futuros desejáveis em todos os níveis. Esse é um desejo meu, quero deixar claro. Não tenho como prever. As escolas precisam reexaminar o horizonte temporal que aplica no seu sistema de aprendizagem e mudar as perspectivas abordadas nas salas de aula, já que, desde nossa tenra infância, nunca aprendemos o futuro nas salas de aula. Pelo contrário: sempre aprendemos o passado e fomos punidos por ele, caso não conseguíssemos memorizar números e datas. Nossos cérebros foram demandados a processar o que já foi, e nunca o que será ou o que poderá ser. Se em vez de apenas sermos avaliados pela capacidade de registrar o passado, engessando nosso potencial criativo, fôssemos avaliados pela capacidade que temos de imaginar mundos possíveis, o que poderia acontecer? Como estaríamos enfrentando os desafios atuais? Certamente com muito mais proatividade e segurança”.

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