ENTREVISTA
27/06/2017    Por Marcela Goldstein
Rossandro Klinjey
Em entrevista exclusiva, psicólogo e palestrante especializado em educação fala sobre as consequências do uso excessivo das redes sociais, da omissão dos pais, e da superproteção na vida das crianças e adolescentes
foto: Rondinelle de Paula

Rossandro Klinjey, 46, é Psicólogo Clínico, Mestre em Saúde Coletiva e Doutor em Psicanálise. Nascido em Campina Grande, Paraíba, o Personal and Life Coach é coautor do livro Educando para a paz, editado pela Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Atualmente, leciona nos cursos de Administração de Empresas, e em especializações nas áreas de Recursos Humanos, Gestão de Pessoas, Gestão Pública, Gestão Estratégica, Marketing, Educação e outros.

Como palestrante, atua nas áreas de perspectivas da educação, motivacão, liderança, relações interpessoais, desenvolvimento emocional, gestão de pessoas, cultura de paz, entre outros, tanto no Brasil como nos Estados Unidos. O life coach divide sua agenda entre sua clínica, palestras e o seu quinto livro, que terá como tema educação e será lançado na Bienal do Rio de Janeiro, em agosto. Ele afirma ter como missão levar seu conhecimento e experiência ao maior número de pessoas possível, contribuindo para que solucionem problemas, desenvolvam e explorem o seu potencial e alcancem mais qualidade de vida em todos os sentidos.

Por que os pais de hoje não conseguem ser respeitados pelos filhos?
Os pais abriram mão da autoridade. Como muitos deles são fruto de uma geração que saiu da Ditadura Militar, veem a autoridade como autoritarismo, relacionam toda a repressão que o período representou, e assim acabam por se afastar desse modelo. Outros vieram de famílias muito rígidas, o que lhes gerou um sentimento de angústia, de trauma ou mágoa. Com o intuito de manter a ordem familiar e vencer dificuldades financeiras, os imigrantes, por exemplo, eram pais muito firmes. Com isso, seus filhos, que passaram muitas dificuldades, idealizaram que, quando tivessem os seus, estes não sofreriam o mesmo. Contudo, esqueceram que certamente boa parte do que são e têm hoje - caráter, resistência, resiliência e competência - é resultado da criação firme que receberam. Com esse pensamento, fragilizam os filhos ao evitar que eles vivenciem qualquer dor ou constrangimento, eventos necessários para o desenvolvimento saudável do ser humano. A criança, na verdade, busca que os pais decidam por ela porque não têm maturidade para fazê-lo. É importante dirigi-la, direcioná-la e, na medida em que for crescendo, entregar-lhe a autonomia da própria vida de forma escalonada, até chegar ao ponto de sair de casa, tornar-se uma pessoa realizada profissionalmente, mãe ou pai preparados para a vida.

Por que acha que os jovens saem da casa dos pais cada vez mais tarde?
A tentativa de formar uma bolha psicológica e física em torno dos filhos, na verdade, os destrói profunda e lamentavelmente. Ao criar tantos esquemas de proteção, acabam por comprometê-los profissional, emocional e afetivamente. Muitos até mesmo permanecem com um padrão de vida irreal, que não é o deles, e sim o padrão dos pais – saem de casa, mas não aguentam se sustentar com o próprio salário, e retornam. Vemos a quantidade de pessoas de 30 a 40 anos que hoje moram com os pais, porque não conseguem, por exemplo, ter um relacionamento ou um emprego estável. A menina e o rapaz criados com tudo do jeito que quiseram e quando quiseram, se encontram, se apaixonam e se casam. Porém, não têm capacidade nenhuma de viver o desafio da tolerância, de abrir mão de algo, de respeitar o outro, de não querer ser servido, mas servir, enfim condições essenciais para um casamento.
Como impor limites para essa nova geração? Quando os pais não se fazem respeitar, a criança não os trata com respeito, mas como meros “office boys” de satisfação de seus desejos, mordomos do seu ego. E, imediatamente, ela replicará essa relação com as pessoas que os representarem no futuro. Quando for para a escola, os professores serão os substitutos simbólicos psicológicos do seus pais. Se ela não aprendeu a respeitá-los, não respeitará seu professor. E, o pior é que, quando o professor tentar se fazer respeitar, o pai irá à escola reclamar de que está pagando e que tem de ser feito o que o filho quer, como se o professor fosse uma babá, e não um fornecedor de conhecimento; uma relação altamente diferente. Portanto, os pais, além de terem minado a própria figura para os filhos, minam também a do professor. Se a criança não respeita nenhum dos dois, ela não acessa o conhecimento, ainda mais nesta geração tão superficial de mensagens curtas e pouco profundas de Whatsapp ou de Twitter. Ouvi uma mãe dizer que o que pode consolar um professor ao tentar fazer o que o pai e a mãe não fizeram pelo filho – e, em vez de receber um elogio, é humilhado por eles - é fechar os olhos e pensar, “ainda bem que esse filho é dele, e não meu”. Porém, como vivemos em sociedade, a deseducação do filho dessa pessoa pode afetar a do seu filho. Por isso, é necessário, além do sentimento de responsabilidade sobre a educação da sua família, contribuir para a educação da sociedade como um todo. Portanto, se o indivíduo não der valor ao professor, consequentemente não valoriza a sua educação e, como consequência, sua formação se tornará deficitária. Ele ingressará no mercado de trabalho acreditando que, assim como é o centro das atenções em casa, será na empresa e, no mês seguinte, será promovido a diretor geral da companhia. Contudo, não é bem isso que acontece. Como aprendeu que o mundo é para ele, e não ele é quem precisa se adaptar ao mundo, não consegue trabalhar em equipe e tem alto nível de conflito.

O senhor concorda que, diferentemente do passado, os pais de hoje se preocupam mais em ser amados do que respeitados pelos filhos?
Sim, e eles não conseguem, porque o respeito é primordial. O amor só vem na fase adulta. Não devemos julgar que aquela carinha doce, meiga, que realmente tem uma carga de afeto muito grande com um indivíduo, já tenha capacidade de amar, né? É responsabilidade nossa, dos adultos, deixar bem claro que existe um conjunto de regras que estão no mundo antes mesmo de termos chegado, para que a criança possa se inserir nesse universo. Uma vez que os pais não dão esses limites e regras por meio do respeito, não conseguirão fazer com que um dia o filho os ame ou ame outra pessoa, pois nem ele vai se amar muito, porque não terá experimentado o amor. Amar alguém significa respeitar a pessoa como ela é, mas também é preciso saber delimitar o espaço do outro. Não é à toa que se registra um aumento de suicídios de crianças e adolescentes. No ano passado, a Associação Americana de Psiquiatria publicou um artigo científico estarrecedor mostrando que, nos Estados Unidos, crianças entre dez e 14 anos morrem atualmente mais de suicídio do que por acidentes de automóveis. Com isso, comprovamos o quão frágeis e incapazes estão, a ponto de que fatos comuns, como um término de namoro acabam se tornando uma tragédia. A relação de disciplina dos pais com os filhos deve fazer com que estes criem autodisciplina interior e aprendam a lidar com suas emoções, frustrações, a não exteriorizar a raiva e a digerir determinadas situações.

Por que os adolescentes têm dificuldades em demostrar afeto aos pais?
Eles, na verdade, demonstram o afeto, o afeto da mágoa. No fundo, ressentem-se de que os pais não cumpriram o seu papel, que não os tornaram capazes, não lhes deram recursos emocionais para enfrentar o mundo. “Você me poupou do que não deveria ter poupado, e por isso hoje eu sou fraco”.

Em sua opinião o excesso de amor pode ser prejudicial?
O discurso do excesso de amor faz com que muitos pais se sintam eximidos do erro que cometeram. Não se trata de excesso de amor, mas sim de omissão. É muito mais fácil para a mãe chegar em casa e dar uma boneca, um novo smartphone, deixar o filho brincando com tablet, ficar na rede social checando quantas pessoas curtiram a roupa do que olhar para o filho e verificar se ele chegou mais calado do colégio, com um olhar diferente. E, se estiver, investigar se está sofrendo bullying, passando por um momento de sofrimento, ou até mesmo com algum transtorno mental.

Como vai observar o filho, se não esta olhando para ele?
Porque cada um fica no seu quadrado, curtindo pessoas virtuais e ignorando as reais que estão ao lado e que, na verdade, são as que fazem toda a diferença! Portanto, quando a criança fica agressiva, no fundo é o pai que não está cumprindo o seu papel. Ela está sofrendo inconscientemente as consequências de não ter sido educada para ser madura e capaz de enfrentar o outro como ele é. Um filho jamais vai compensar um pai e uma mãe por tudo que receberam, mesmo que eles tenham falhado.  Somente o dom da vida já é algo impagável, já nos deixa com uma dívida muito grande. Mas, quando os pais fazem o necessário, eles têm o maior orgulho de poder devolver um pouco do que receberam. Como deixar bem claro qual é o papel dos pais e qual é a função da escola? A escola está envolvida em levar às crianças e jovens um volume cada vez maior de conhecimento produzido pela ciência humana das várias disciplinas, num mundo cada vez mais competitivo e complexo. Em meio a esse turbilhão, ainda se espera que ela cumpra um papel que é dos pais. A escola só pode ser uma segunda família, e pode até colaborar com a família, se esta for a primeira escola. Então, a escola é a segunda família, se a família for a primeira escola. Assistir a um jogo da criança, olhar seu caderno, realizar tarefa juntos é fundamental. Estudos de diferentes países deixam bem clara a forte relação entre bons resultados na educação e o quanto os pais se envolvem. O que os pais consideram importante também será importante para o filho. Mesmo se houver aquela resistência ao estudo, o pai deve estar lá, cumprindo seu papel. É preciso impor, e isso não está aberto à discussão. Sentar para discutir qualquer coisa não é viável em nenhuma relação, ainda mais em uma relação assimétrica, como é a que existe entre pais e filhos. Em uma assimetria, a democracia é comprometida, e é assim que deve ser, porque o pai e a mãe têm uma autoridade maior que a dos filhos. Logo, os filhos cujos pais participam da sua educação serão bem-sucedidos na escola e, mais tarde, profissionalmente.

Como você acha que as crianças sem limites de hoje tratarão seus pais no futuro?
Em minhas palestras sempre conto a história do meu avô. Como minha mãe teve Lúpus, eu cuidava de seu pai, que sofria de mal de Alzheimer. Ele era um homem muito bom, doce, e foi desaparecendo até os 94 anos, quando precisou ficar em uma cama hospitalar em casa. Eu passava óleo de girassol nele para não dar escaras e hidratante para a pele não se rasgar. Após narrar com detalhes, eu pergunto se já fizeram algo parecido por algum parente e a maioria responde “sim, eu fiz”. Faço uma pausa e indago: os filhos que estão educando vão trocar suas fraldas quando vocês estiverem doentes e incapazes?” É impressionante como a plateia recua. Então cai a ficha de que, aqueles pais duros, rígidos, mas que se fizeram respeitar, estabeleceram limites e não nos deixaram fazer o que queríamos, são amados e cuidados. E os filhos dos que deram, supostamente, excesso de amor - que é muito mais uma omissão, irresponsabilidade e preguiça de educar - não apenas não vão cuidar dos pais, como vão lhes sugar a velhice, porque ainda estarão morando com estes, pedindo dinheiro e, em muitos casos, levando netos para eles criarem. Isso acontece em qualquer classe social. Conheço muitos com pouca renda que são filhos de papai, já que seus pais deixam de comer para comprar para eles uma calça de marca.

Vivemos em uma geração ansiosa e pouco resiliente. É possível mudar isso?
Quanto mais rápido perceber que errou e começar a corrigir suas falhas, há mais tempo hábil de desfazer certas coisas, até porque a plasticidade neurológica de uma criança é maior do que a de um adolescente e de um adulto. Use seu poder financeiro, não para humilhá-lo, mas como um instrumento didático para que ele passe a respeitá-lo, e finalmente, não pelo o que você pode oferecer, mas por quem você é - mesmo que em um primeiro momento tenha de tirar coisas do seu filho e não facilitar mais tanto a vida dele. No início haverá conflito, já que o acostumou a ser o dono da casa. A partir daí, momento que chamo de reintegração de posse afetiva, você recupera o terreno que perdeu para si mesmo. Resgatará na criança aquilo que sempre teve de estar em suas mãos: a autoridade e o respeito, que são os princípios e os valores.

Qual o impacto das redes sociais na vida das crianças e adolescentes? Há muitas décadas se mede o QI (quociente de inteligência) mundial, e normalmente sempre há uma elevação. Porém, no ano passado, pela primeira vez na história humana, registrou-se um declínio. As pessoas estão chegando a passar nove horas por dia em Whatsapp, Facebook, Instagram, Snapchat, no Youtube, ou seja, é muito tempo no mundo virtual. Os jovens interagem cada vez menos com o mundo real. O uso de smartphone à noite é maléfico, porque a sua tela cria uma luminosidade que inibe a produção de melatonina, o que compromete o sono e a memória. Mas estou esperançoso em relação a isso. Cada vez mais pessoas estão conscientes e dando limites de uso diário aos filhos. Além do aumento de estudos acerca deste assunto, importantes diagnósticos estão sendo feitos e muitas pessoas, entre as quais me incluo, estão aderindo ao “detox digital”.

Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Várias pesquisas apontam para o fato de que um dos recursos fundamentais que ajudam muito as famílias, mas tem sido pouco usado, é a fé. Procure alguma religião, independentemente de qual seja, vivencie a experiência em família. Os filhos que participam com os pais da religião são bem menos vulneráveis a qualquer tipo de comportamento perturbado na adolescência e na fase adulta, porque recebem um conjunto de valores e são menos suscetíveis às tentações comuns do mundo.
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