ENTREVISTA
28/04/2017    Por Marcela Goldstein
Pense fora da Caixa
Conheça as admiradas teorias sobre criatividade e inovação do fundador do curso Reaprendizagem Criativa e um dos palestrantes mais requisitados do País
foto: Divulgação

O morador de Alphaville, Murilo Gun, 35, tem inovação e pioneirismo em seu DNA. Foi um dos precursores da internet no Brasil. Em 1997, quando a rede ainda estava engatinhando, o recifense criou um site que ganhou duas vezes o prêmio iBest de melhor site pessoal do País - detalhe, na época tinha apenas 14 anos. Em 2000, lançou o Peça Comida, primeiro portal de pedido de alimentação pela internet. Formado em Administração de Empresas pela Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco e com MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC, deixou a vida de empresário para ser comediante. Fez shows por todo o Brasil e, na TV, além de participações em diversos programas, trabalhou como apresentador do República do Stand-up (Comedy Central), Amigos da Onça (SBT) e A Pergunta Que Não Quer Calar (Multishow). Com carreira consolidada no stand-
-up e na comédia corporativa, em 2014 foi selecionado entre 80 empreendedores do mundo para participar do GSP - Graduate Series Program, que tem por objetivo estimular mentes criativas a produzir projetos voltados a tecnologias com potencial de crescimento exponencial, na Singularity University. Fundada em 2009, a universidade conta com apoiadores Google, Nokia, Kauffman e Cisco., e fica dentro de uma base de pesquisa da Nasa no Vale do Silício, Estados Unidos. Após viver a incrível experiência da Singularity, criou o curso online Reaprendizagem Criativa, que visa a eliminar bloqueios e despertar a capacidade dos alunos de pensar além e fazer diferente. Com listas de espera, uma vez que a criatividade é cada vez mais valorizada no universo corporativo e dos negócios, o programa traz técnicas inovadoras para o desbloqueio da criatividade. Para incentivar o retorno a uma vida “fora da caixa”, Gun desenvolveu recentemente a teoria do Comedy Thinking, um “estilo de vida”, que segundo ele, tem despertado a atenção dos participantes de suas palestras e dos mais de dois mil e quinhentos alunos que já passaram por seu curso Reaprendizagem Criativa: como aplicar técnicas usadas pelos comediantes para ser mais criativo e inovador na solução de problemas. Em sua teoria, o professor mostra que profissionais e empresas precisam quebrar uma série de barreiras criadas ao longo do tempo e que impedem a essência dos processos criativos. Para ele, é possível aprender a fazer comédia, assim como é possível aprender a ser mais criativo. Afinal, todos nascemos “fora da caixa”
e vamos sendo colocados dentro dela. A seguir, a entrevista com Murilo.

Qual o maior aprendizado que você teve na Singularity University, no Vale do Silício?
Quando fui para a Singularity, trabalhava unicamente como comediante. Não tinha uma equipe, era apenas meu empresário/ produtor e eu. E, na época, vivia repetindo que preferia trabalhar sozinho do que com muita gente. Entre 2002 e 2006, era sócio de uma empresa com 40 pessoas, período em que havia criado uma espécie de trauma, que virou uma crença. Quando encontravaalguém com uma equipe pensava – nossa, um monte de gente, um rolo, cada qual com um problema… E, como as palavras têm poder, na sétima semana do curso, tivemos de montar um grupo para criar projetos. Todos os que estavam lá eram muito diferenciados, mas montamos “o time”, que ganhou competições e nosso projeto ficou entre um dos cinco selecionados para a cerimônia de conclusão do curso. Portanto, considero que aprendi a importância de ter uma equipe incrível. A segunda maior aprendizagem, na verdade, mais uma lavagem cerebral positiva, foi a mentalidade de fazer coisas de grande impacto. A grande provocação deles é criar algo que impacte positivamente um bilhão de pessoas em 10 anos. É claro que é difícil mensurá-los, porque são impactos diretos e indiretos. A Singularity abre sua mente para você voltar e fazer melhor o que já estava fazendo, lhe dá branding e visibilidade. Foi o que me fez voltar para o Brasil, dar uma pequena pausa na comédia e montar um negócio de educação, na internet, que é escalável e, claro, com o time para fazer isso.

Você afirma que criatividade é treinável, que todos nascemos criativos e desaprendemos. Como reaprender?
Sim, nascemos criativos e é possível reaprender a ser. Quando vemos uma coisa, não conseguimos “desver”. Quando sabemos sobre algo, é muito difícil “dessaber”. A primeira, e mais importante etapa, é ter consciência do que bloqueou a sua criatividade; isso, naturalmente, o tornará mais atento. A segunda, que potencializa, é adquirir tools (ferramentas), é se armar. O homem evoluiu não apenas por ter ficado mais esperto e mais consciente, mas por ter desenvolvido recursos. E na criatividade também existem vários métodos, que vão além de mindset, e podem ser aplicados numa reunião criativa, por exemplo.

É possível quando existe perspectiva para contrariar a lógica e fugir do senso comum para dar espaço à criatividade. Explique sua teoria.
Um dos principais bloqueios à criatividade - que adquirimos com o tempo – é achar que a lógica é o único e grande caminho para tudo. Ao crescermos, vamos nos tornando lógicos demais e preferimos as soluções que são extremamente lógicas. E, na questão da lógica, sabe quem é melhor e mais rápido do que nós e até já comprovou isso? O software do computador. Se for para concatenar logicamente de A para B, de B para C, ele é mais rápido que nós. Por isso que os saltos de lógica são o diferencial humano. Às vezes precisamos ser lógicos, mas nem sempre. Se eu quero amarrar meu cadarço, pegarei as duas pontas, vou entrelaçá-las e pronto. Portanto, para as mudanças incrementais usamos a lógica, mas para as desruptivas, os saltos de lógica. A lógica contraria a intuição – aquela voz que ouvimos baixinho - que às vezes não faz muito sentido, e à qual muitas
pessoas desistiram de prestar atenção. Se, ao ter uma ideia ilógica, você ouvir “está louco”?, é um bom sinal. Isto evidencia que você está quebrando paradigmas, padrões. Se tiver coragem de testar e fazer, e der certo, na velocidade em que vivemos, logo se torna padrão do mercado e ninguém mais ousará dizer que é ilógico. Devemos buscar quem quebra padrões, dá saltos de lógica, cria o novo “normal.” Não basta ser inovador uma vez, mas sempre.

Quais são os principais desafios para integrar o humor com a educação?
Para integrar humor e educação, a primeira coisa é entender que isso não significa desenvolver aulas hilariantes. Mas, sim, informais. Quando dizemos que fulano é bem-humorado, não significa que essa pessoa fique o tempo todo fazendo piadas. É alguém legal com quem conversar, engajante, ele o conecta e o prende. Todos querem estar perto dele. Acredito que na educação é preciso ter esse bom humor e passar o conteúdo com leveza e informalidade, principalmente para a nova geração. Aprender deve ser um prazer, uma jornada, uma troca, não apenas top down - um fala e os outros ouvem. As pessoas aprendem muito via exemplos e analogias. E o humor é a arte de fazer analogias. Quantas piadas são meras analogias? Ao encontramos algo comum entre duas coisas em universos bem diferentes, fazemos uma comparação e levamos para o mundo das aulas esses exemplos, as pessoas aprendem e eles ficam marcados nelas.

Qual a forma mais eficaz de absorver conhecimento?
A forma mais eficaz acredito que seja o primeiro pré-requisito: ter um bom motivo. O motivo gera motivação. Eu, por exemplo, estou estudando criatividade porque será uma das habilidades mais importantes do futuro. Os softwares executarão cada vez mais tarefas, a robótica ocupará cargos antes somente nossos, e um dos diferenciais humanos será a capacidade de criar e de dar saltos de lógica.
É esse “why”, um bom motivo, pelo qual me interesso por esse assunto, que me faz continuar estudando e que leva grande parte dos alunos a se conectar. Na escola primária, aprendemos em pedaços, sem continuidade, sem entender qual a finalidade e a relevância daquilo. Isto acontece em todas as matérias. Falta mostar com um bom motivo. Outro fator importante na aprendizagem são múltiplos impactos em incubação. Nem tudo o que vemos, observamos e lemos fica no nosso consciente. E a incubação é o processo em que se conectam. Por isso falamos “estava dirigindo e, do nada, veio aquilo”. Na verdade, não é do nada; você já tinha estudado, já tinha se interessado pelo assunto. Ensinar também ajuda a consolidar o conhecimento. Ao aprender sobre algum assunto, volte para casa e o explique para o seu marido, esposa, enfim. Faça uma mini-palestra para seu time na empresa. Dê uma aula para você mesmo no espelho.

Se, para ser criativo, é preciso mudar a forma de pensar, como “desaprender” algumas crenças limitantes e se livrar dos bloqueios educacionais, mercadológicos e cerebrais?
Para se livrar dos bloqueios, o primeiro passo é ter consciência. Por exemplo, ter consciência que você sofreu o bloqueio da lógica, pois fomos moldados a achar que o caminho para tudo é o caminho lógico, que é a lógica que rege tudo, que, se não for lógico, não funciona, e passamos a ter consciência de que isso não é uma verdade absoluta, de que o lógico é importante, mas o ilógico também é. Só em ter essa consciência, e se você retém essa aprendizagem, ou seja, múltiplos impactos, se você entende o motivo, o porquê, a razão de ser tão importante ser ilógico; se você teve múltiplos impactos em relação a isso, se você ensinou para outras pessoas, esse conceito fica mais consolidado, e agora é colocar em prática. Aí vem uma coisa importante, que é coragem, porque não dá para fazer coisas criativas sem coragem, sem conseguir enfrentar os medos, minimizar os riscos, mas encarar e minimizar os medos; e medos sempre envolvem riscos, mas ir mesmo com riscos, porque, se o risco for zero, significa que o negócio é lógico. É tão certo que você não estará fazendo nada diferente.

De que maneira gestores e executivos podem desenvolver ambientes propícios à criação?
O gestor, executivo e líder precisam ser criativos e walk the talk - fazer o que falam. Portanto, eles podem transformar a equipe por meio de exemplos, além de promover workshops, dinâmicas e atividades específicas. Também é preciso criar um ambiente que permita o erro. Há uma correlação entre o nível de inovação e o nível do risco. Em geral, quanto mais inovador, mais riscos se correm. Contudo, é possível ser criativo para minimizar esses riscos por meio da experimentação. Na minha opinião, as empresas devem ter mentalidade de cientista. Começam criando um negócio pequeno, com um produto de cada vez, fazem um teste online e avaliam o segmento. Outro fator importante é a alocação correta das pessoas nas atividades em que as motive intrinsicamente. Que faça com que colaborador acorde para exercer uma atividade pela qual tenha paixão. E essa paixão é o seu combustível, o fogo para que tenha insights diferentes, caso tenha a possibilidade de correr pequenos riscos. Existem ainda técnicas e ferramentas para realizar reuniões criativas. Por exemplo, utilizar uma ferramenta essencial para potencializar a criatividade, brainstorm, que dividi as reuniões em etapas: divergir, convergir, separar o momento de explodir ideias do momento de julgar as ideias. Você diz o problema e pede ideias. Na sequência, existe a evolução do brainstorm para brainwriting – em vez de as pessoas falarem suas ideias, escrevem em um post-it ou papel, por determinado tempo, o máximo de ideias possíveis, sem julgar se são boas ou ruins. É o momento de calmaria, oposto ao storm (tempestade). Em seguida, cola-se o papel na parede, associando as ideias. Um grupo de 10 pessoas consegue, seguindo corretamente o método, em cinco minutos, ter 100 ideias. Claro, algumas repetidas, mas 100? Considero muito bom.

Como a criatividade pode se transformar em uma ferramenta para lidar com as adversidades do dia a dia?
Criatividade é uma ferramenta para resolver problemas. É passar a enxergar não apenas as grandes adversidades, mas as pequenas também. Para isso, toda vez em que deparar com algum problema, pequeno ou “Ser criativo é errar e acertar constantemente. O acerto e o erro devem ser absorvidos e entendidos para que a busca pela melhoria contínua siga sendo a grande essência desse ciclo” grande, profissional ou pessoal, basta lembrar de não se contentar com a primeira resposta certa. Tudo bem que ela funciona, mas todo problema tem mais de uma resposta.

Por que é importante aculturar os outros para ser criativos?
Aculturar é muito importante; primeiro, como forma de autoaprendizado. Educar os outros é uma forma de você aprender. É o que chamamos de educação egoísta - você quer ensinar alguém de forma egoísta, pois no fundo você quer é aprender, mas acaba compartilhando também. E porque, para fazer diferente, é preciso do apoio das pessoas ao seu redor, que devem estar alinhadas na forma de pensar, ou você ficará frustrado. Contudo, é importante ter cuidado com a comunicação violenta. Você deve ser criativo para envolver o outro, dando os whys (motivos) para que se interesse aos poucos pelo assunto. Funciona como uma espécie de paquera, sedução. Além da autorretenção e da autoaprendizagem, o grande motivo é poder fazer acontecer, já que não fazemos nada sozinhos.

Quem são as pessoas que você considera referência na sua vida?
Tenho muitas referências, mas, como gosto de fazer humor com certo ritmo e poesia, diria, os norte-americanos, George Carlin, por brincar com as palavras, fazer trocadilhos, sonoridade e ritmo; e Jerry Seinfeld, pelo humor nas pequenas coisas cotidianas.

Qual mensagem você deixaria para quem quer empreender?
É difícil responder, porque depende do momento, do segmento, se você está começando, se já é grande, se está no mercado de extrema incerteza, ou no mercado tradicional..., existem muitas variáveis. Mas o que há em comum que considero importante para todos os empreendedores é montar “o time”; executar, e não ficar apenas ouvindo e aprendendo; e se desapegar de crenças, pois só assim é possível quebrar um padrão e fazer algo diferente.

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