ENTREVISTA
03/07/2019   
Aprender com os erros para crescer
Adriana Fellipelli | foto: Divulgação

A inteligência emocional é uma habilidade cada vez mais necessária. Ter capacidade de reconhecer e administrar as emoções para alcançar objetivos é aprender, é direcionar o próprio crescimento e a autoconfiança. Veja a entrevista com Adriana Fellipelli, fundadora e sócia da consultoria Fellipelli, plataforma que tem como objetivo facilitar a aprendizagem compartilhada. Ela fala sobre o papel da neurociência, especialmente no momento da escolha da profissão. Adriana chama a atenção para um ponto interessante dos estudos a respeito do funcionamento e desenvolvimento do cérebro: talento e inteligência podem ser desenvolvidos, não são estáticos.

Em que a neurociência pode ajudar o adolescente na escolha da carreira?
A Neurociência é o estudo científico do sistema nervoso e suas funcionalidades e o estudo do cérebro é um dos focos centrais dessa disciplina. O cérebro é uma estrutura bastante complexa, muito estudada pelos neurocientistas. A cada dia surgem novas descobertas sobre seu funcionamento, que são apresentadas por meio de artigos científicos pelo mundo todo. E estamos ainda só no começo. Existem muitas perguntas sobre o cérebro ainda sem respostas; mas o tema da neurociência chegou para ficar quando falamos em desenvolvimento humano. Como evidência disso é possível identificar, atualmente, que os aprendizados da neurociência estão sendo utilizados, por exemplo, em metodologias de coaching ou de treinamentos de liderança desenhados com base nos estudos neurocientíficos. A Neurociência também mostra que os hábitos e as preferências comportamentais que aprendemos são “gravados” no nosso mapa mental e, algumas vezes, podem “nos distrair” do que realmente gostamos porque são respostas mais automáticas do cérebro. Um ponto interessante é que estudos sobre o funcionamento e desenvolvimento do cérebro mostram que talento e inteligência podem ser desenvolvidos, não são estáticos. Suzana Herculano em seu livro, “O cérebro Adolescente”, mostra que a empatia e outras funcionalidades são formadas mais tarde. O que se pensava era que até os 18 anos o cérebro estava pronto, mas não é verdade. O cérebro se desenvolve até a casa dos 25 anos.

Por meio de novas conexões, o cérebro pode se moldar. Esse conceito é chamado de Neuroplasticidade. A psicóloga americana Carol Dweck, colaboradora do Neuroleadership Institute (parceiro internacional da Fellipelli) descreveu essa pesquisa no livro Mindset, a nova psicologia do sucesso. Portanto, em uma escolha de carreira, mesmo que o jovem não tenha plena habilidade ainda para o que deseja fazer, ele pode desenvolver esse talento mantendo foco, atenção, repetição de comportamentos e feedbacks (dele mesmo e dos outros). Para tanto, é fundamental que haja reforço positivo.

Líderes com alto QI são os mais bem-sucedidos?
Não necessariamente uma pessoa com um QI alto se torna um líder melhor. O que vemos atualmente é que a inteligência emocional tem se mostrado cada vez mais fundamental para que um líder consiga atingir as metas de uma organização. Fatores emocionais como autopercepção, capacidade de se expressar, relacionamentos interpessoais, gerenciamento de estresse e equilíbrio emocional na tomada de decisão são mais e mais demandados pelas organizações. Considerando a rapidez com que as mudanças estão acontecendo no mundo VUCA (sigla em inglês para os termos Volatile, Uncertainty, Complex and Ambiguous), estamos em um contexto que pede alto grau de adaptabilidade, resiliência e controle de impulsos, por exemplo. Habilidades comportamentais totalmente ligadas ao gerenciamento das emoções. Por isso, as organizações têm investido cada vez mais no desenvolvimento das habilidades emocionais dos seus líderes, e um dos instrumentos mais utilizados é o EQ-I 2.0, instrumento capaz de identificar a inteligência emocional dos profissionais e colaborar para que um plano de ação de desenvolvimento das competências emocionais seja traçado.
Entre QI e Inteligência Emocional, é muito complexo apontar qual é mais ou menos determinante para o sucesso de um jovem. Isso depende de vários fatores, como por exemplo a carreira que esse jovem vai definir, o ambiente que vai trabalhar etc. O que se pode dizer é que o desenvolvimento da inteligência emocional se mostra importante em todos os contextos. Conhecer suas emoções e saber como gerenciá-las trazem benefícios para qualquer pessoa, não apenas no âmbito profissional mas também na vida pessoal.

Como o jovem pode ter discernimento para escolher sua carreira com tantas opções existentes hoje no mercado?
Existem alguns tipos de assessments que podem ajudar na definição de carreiras, como o Birkman. Temos esta ferramenta, que é uma avaliação comportamental que integra dados comportamentais, motivacionais e ocupacionais. Essa avaliação, desenvolvida a partir de metodologia científica, resulta em escolhas pessoais de carreira com um foco mais claro. O assessment identifica com precisão as áreas de interesse que são mais afeitas a partir da personalidade de cada um. Quanto mais escolhermos o que é mais próximo do que somos na essência menos esforço teremos no trabalho, é aquela sensação de não estar trabalhando que muitos sonham em obter. Dentro das áreas de interesse também podemos observar qual ambiente e que tipo de interação desejamos, que controle, necessidades etc... Isto nos ajuda a moldar nosso ambiente de trabalho

Qual a postura esperada de um líder do futuro?
Hoje, o líder não é mais aquele que sabe todas as respostas, que direciona os funcionários o tempo todo, que é distante da maioria dos funcionários da empresa. Uma das funções mais esperadas de um líder é que ele inspire seus colaboradores, que desperte o melhor das pessoas, que desenvolva e que desafie de uma maneira construtiva.

Outros competências fundamentais são: capacidade de se comunicar bem (com assertividade, empatia e escuta ativa), influenciar (criar confiança, inspirar e saber transitar politicamente), autoconhecimento (quanto mais o líder se conhece, melhor é sua capacidade de conhecer seus colaboradores) e aprendizado rápido (conhecido como Learning Agility – capacidade de absorver rapidamente novos aprendizados relevantes e conseguir aplicá-los de forma efetiva).

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