ENTREVISTA
30/03/2017    Por João Felipe Cândido
Maria Dalva Oliveira Rolim
Conheça a inspiradora trajetória da empresária e moradora da Granja Viana que, por meio do horsemanship, processo de relacionamento entre as pessoas e os cavalos, conseguiu tomar as rédeas de sua vida e escrever um novo capítulo de sua história
foto: Neide Weingrill

Descendente de índios, nascida numa fazenda na cidade de Dores do Turvo, no interior de Minas Gerais, Maria Dalva Oliveira Rolim, 53, cresceu vendo seu pai trabalhar com cavalos. Naquela época, se alguém perguntasse para a menina “o que você quer ser quando crescer?”, sua resposta seria
automática: “Vou ser domadora de cavalos”. Seu pai, no entanto, dizia que lidar com cavalos era tarefa para homens. O tempo passou e a jovem foi para a cidade grande estudar. Aos 14 anos começou a trabalhar e não parou mais. Teve experiência em banco, comércio, indústria e, mesmo sem nunca ter cursado uma faculdade, tornou-se uma empresária respeitada no ramo da logística internacional, com forte atuação nas áreas do petróleo e
construção. “Hoje, considero-me uma mulher bem-sucedida. Não pelo lado financeiro, mas porque construí uma empresa com ética”, diz. Maria Dalva se orgulha de nunca ter cedido a propostas que recebeu de propinas e de lucro ilícito. À frente da presidência da Enterprise Logistics, revela que já teve problemas de relacionamento com seus funcionários, a ponto de ser chamada de “Miranda”, a temida personagem do filme O Diabo Veste Prada.
“Eu era difícil e as pessoas tinham medo de mim”, confessa. Quando se separou de seu primeiro marido, chegou ao fundo do poço, sendo diagnosticada com depressão. “Estava mal comigo, não gostava do que via no espelho e decidi que era hora de mudanças. Busquei ajuda, fiz terapia, li vários livros e procurei fazer alguns cursos. Percebi que não sabia nada sobre mim. Já tinha trabalhado muito, conquistado vários objetivos e, mesmo assim, não sabia quem eu era”, revela. Casada, mãe de um casal de filhos do primeiro casamento, sua vida teve uma reviravolta há cerca de cinco anos, após conhecer o horsemanship, curso de doma racional que auxilia o processo de relacionamento entre as pessoas e os cavalos. A convite do TED,
organização sem fins lucrativos dedicada ao lema “ideias que merecem ser compartilhadas”, em maio de 2015, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), falou sobre “como os cavalos a ajudaram a tomar as rédeas de sua vida”. Sua palestra no TEDx São Paulo Woman já teve quase 300 mil visualizações
no canal do TEDX, no YouTube. Numa tarde de terça-feira, Maria Dalva se encontrou com a diretora de redação da Viva S/A, Rosana Aragon, a quem concedeu entrevista. Acompanhe, a seguir, os melhores momentos.

Hoje, quem é Maria Dalva?
Se a pergunta tivesse sido feita há alguns anos, não saberia. Sempre estive preocupada com a minha carreira, com a criação dos filhos e em ser esposa. Nunca havia parado para refletir sobre mim e saber quem eu era verdadeiramente. Foi por meio desta pergunta que tive o start para uma grande mudança em minha vida. Agora enxergo os meus objetivos, me preocupo em estar bem e me amo. Se alguém me perguntar o que desejo ser,
está muito claro: quero compartilhar a minha história; se puder acrescentar minimamente algo de inspirador ou motivador na vida das pessoas, ótimo. Sou uma mulher de 53 anos que está se descobrindo como ser humano, aceitando os seus defeitos – porque nós todos os temos. Não deixo a vida me levar. Eu pego as rédeas e levo a minha vida. Estou aprendendo a cada dia que passa quem é a Maria Dalva.

Qual foi o gatilho para fazer essa mudança?
Minha autoestima era baixa. Aceitava aquilo que a vida me dava e tinha uma enorme preocupação em agradar as pessoas. Sofri uma grande decepção amorosa, que culminou em divórcio. Resultado: minha autoestima ficou pior do que estava. De certa forma, eu era uma mulher interessante, bonita, empresária, bem-sucedida, mas não me enxergava assim. Sabia que eu precisava me encontrar, me amar. Foi a partir daquele momento que fiz uma lista das coisas que eu achava que desejava fazer. Desde a infância, por influência do meu pai, que era domador, sempre gostei de cavalos. Falava para ele que um dia eu também seria domadora de cavalos e ele retrucava: “domar cavalo é coisa para homem”. Naquela lista coloquei o desejo de domar cavalos – que era algo que mexia muito comigo. Por meio dessa lista fui me descobrindo como pessoa e mapeando aquilo que queria fazer da minha
vida. Matriculei-me numa hípica, comprei um cavalo branco, sem o príncipe (risos) e comecei com as aulas de equitação. Mas senti que aquilo não me motivava. No entanto, minha interação com o Galego só aumentava. Eu ficava horas interagindo com o cavalo. Aquilo foi me fascinando e o meu cavalo começou a me seguir e relinchava toda vez que me via. Nossa conexão estava cada vez mais forte, porém, ainda tinha muito a aprender.

Foi nessa época que você conheceu o horsementship?
Exatamente. Um amigo me falou sobre o horsemanship, que é o processo de relacionamento entre as pessoas e os cavalos. Fui pesquisar sobre o assunto e soube da existência de um curso de doma racional usando a técnica de horsmentship, em Sorocaba. Cancelei todos os compromissos daquela semana, me inscrevi e fui. Chegando lá, só havia homens. Comentei com o professor: “estou notando que aqui só tem homens. Esse processo é algo muito bruto? Exige muita força?“. Ele respondeu:“A técnica que estou difundindo no Brasil qualquer pessoa pode aplicar. Não se usa a força nem a violência”. O instrutor é um médico veterinário que se especializou nessa técnica nos Estados Unidos. Fiquei imersa naquele universo durante
uma semana. Acordava motivada, como há muito tempo não me via. Durante as aulas, fui descobrindo a real sensação de conexão com o cavalo, do meu relacionamento com Deus, com os meus filhos e com as pessoas. O cavalo foi o meu espelho, eu me via por meio do relacionamento com ele. Voltava para casa encantada. Além de ter aprendido a domar cavalos, acabei domando o professor. No dia do nosso casamento, é claro que subi
no cavalo vestida de noiva. Paralelamente ao trabalho em minha empresa, tornei-me sócia do meu marido, Fernando Rolim, na Global Equus consultoria. Lá, atuo como coach e facilitadora no treinamento de líderes com cavalos. Por meio de um workshop, promovemos um programa de alto impacto para a vida das pessoas. A metodologia conta com auxílio dos cavalos para desenvolver nos participantes habilidades de comunicação, autoconfiança, autoconhecimento, foco, paciência e persistência. O horsemanship foi fundamental para mostrar que o cavalo reage de acordo com a minha linguagem corporal.

Sua experiência com o cavalo rendeu uma apresentação no TEDx São Paulo Woman, sob o tema “Tome as Rédeas de Sua Vida”. Como avalia a experiência?
A neurociência explica que, para conseguirmos realizar um sonho, é preciso acreditar nele. Há dois anos, eu estava conversando com algumas pessoas e comentei: “estou preparada para compartilhar minha história”. As palavras têm poder. Falei isso em janeiro e em maio eu estava no Masp, em São Paulo, participando do TEDx. Aquela situação me assustou. Seria a primeira vez que iria falar em público. Foi uma prova de autoconhecimento
muito grande. Saí do palco com uma certeza: “quero ir fundo nisso”. Um aprendizado que costumo relembrar sempre: “Quando achar que você está bem, saia imediatamente de sua zona de conforto. As pessoas que conseguem ter capacidade de adaptação às mudanças são as que mais sobressaem”.

Como você trabalhou nesse mercado e não se deixou corromper? Qual foi sua estratégia para manter a sua empresa?
Trabalhei em uma área bastante corrupta, que é a do petróleo, e consegui provar que é possível fazer negócios licitamente Em primeiro lugar me baseei nos princípios cristãos. Eu tinha uma ideia, queria crescer e que a minha empresa prosperasse, mas tinha em mente jamais fazer qualquer negócio ilícito. A minha estratégia para não compactuar com isso foi me especializar no melhor prestador de serviços: expertise. O dinheiro não está em primeiro lugar na minha vida, antes vêm o meu trabalho, o meu nome, a minha dignidade; o dinheiro é consequência. Se eu ganhar dinheiro, bem; se não ganhar, paciência. Pelo menos eu durmo tranquila.

Qual é o seu maior sonho?
Um projeto que estou desenvolvendo com o meu cavalo: viver uma relação de confiança mútua. Esse é o meu sonho pessoal. Profissional: quero ser uma boa líder, ainda acho que não sou. Percebo que tenho algo muito positivo, que é quando me dedico; quando tenho paciência, obtenho coisas incríveis das pessoas. Consigo motivá-las. Mas me falta paciência. Estou nessa fase de ter um pouco mais de calma com a coletividade; individualmente, eu tenho muita. Se eu tiver que trabalhar com uma pessoa que está em depressão, que precisa de ajuda, vou ouvir, ter paciência. Na coletividade, porém, ainda preciso evoluir muito.

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