Articulista
Roberto Shinyashiki
Carreira e Relacionamento
Roberto Shinyashiki
Psiquiatra, escritor e conferencista
27/11/2017
O navio está afundando, o que você vai fazer?
Tomar uma atitude é assustador, mas vai valer a pena dar o primeiro passo
foto: Divulgação

Muita gente vive angustiada, preocupada ou passiva procurando um jeito de disfarçar as suas dificuldades. Quando observo com cuidado o estado emocional da maioria das pessoas, hoje vejo que estão alienadas como se estivessem sentadas jantando confortavelmente no restaurante do Titanic - tudo afundando, mas ainda podemos pedir ao garçom aquele vinho maravilhoso, "vamos terminar esta sobremesa enquanto isso", elas dizem. Quem nunca tratou a própria vida financeira assim, por exemplo?

As pessoas sentam em bares para discutir que tudo está perdido, mas não conseguem mudar nem mesmo o caminho para ir até o trabalho; não conseguem acordar na hora em que se comprometeram ou sequer mudar um hábito alimentar nocivo, e depois é o mundo que está errado. Queremos transparência sem praticar a transparência, queremos amor sendo agressivos, queremos riqueza sendo mesquinhos, queremos sucesso sendo preguiçosos.

Vivemos em um mundo com o índice de quase oitocentos mil suicídios por ano. É muita gente desistindo de lutar, querendo matar não a si, mas a angústia que sentem. No mundo, são mais de 350 milhões de depressivos, e, no Brasil, 23 milhões de pessoas têm algum transtorno de saúde mental. E daí olhamos em volta e vemos que falta muito autocontrole emocional, falta foco, e que as pessoas buscam milhares de respostas fora de si mesmas. Elas sofrem com falta de apoio e tratamento, claro, eu não diminuo o peso das doenças da mente e dos recursos que (ainda bem) existem para tratá-las, mas principalmente, essas pessoas não têm a si mesmas como um porto seguro e confiável. Você é confiável? Se a vida fosse aquele jogo de futebol empatado indo para os pênaltis, você seria o cara que viraria pro técnico e diria “deixa que eu chuto”? Você banca isso? Prestar atenção no mundo é reparar que a alma das pessoas grita por socorro, enquanto a indústria tenta convencê-las de que o carro do ano pode suprir essa angústia. Ou o corpo certo, ou a quantidade de bens exata. O que acontece na maioria das vezes é que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas percebem que compraram as fórmulas erradas para a realização. Investiram anos naquilo que não respondeu a nada. Se você consegue obter tudo aquilo a que se propôs, mas a paz de espírito não vem, do que vale o seu conforto?

Olhe em volta e veja se você não está jantando no restaurante do Titanic com a sua família, sua carreira, com a sua vida. Não seria melhor buscar um bote salva-vidas e passar um pouco de frio para ficar vivo em longo prazo? Será que você não deveria prestar atenção na ansiedade do seu filho antes que ele cresça e nunca mais confie em você? Tomar uma atitude é assustador, mas você vai ter que dar o primeiro passo e mostrar para o mundo a que veio, que você não vai afundar de barriga cheia. Travar pode ser travar para mudar a si mesmo, ou seja, travar para mudar os vícios dentro de você que pedem para terminar aquele jantar cujo prato final é o fundo do oceano.

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