Articulista
Augusto Cury
Inteligência Emocional
Augusto Cury
Psquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor
27/03/2018
Que tipo de casal você forma? Saudável ou Doente?
Podemos traumatizar quem amamos

Ser individualmente inteligente não quer dizer ter capacidade para construir uma relação inteligente e saudável. Pessoas cultas podem se relacionar de uma maneira irracional, falida emocionalmente, saturada de atritos e destituída de sensibilidade. Casais saudáveis se amam com um amor inteligente e não apenas com a emoção. Quem apenas usa da emoção para sustentar o relacionamento corre o risco de ver seus sentimentos flutuando entre o deserto e as geleiras.

A relação desinteligente é intensamente instável, enquanto a relação saudável, ainda que golpeada por focos de ansiedade, tem estabilidade. A relação desinteligente é saturada de tédio, já a saudável tem uma aura de aventura. Na relação desinteligente, um é perito em reclamar do outro, enquanto, na relação saudável, um se curva em agradecimento ao outro. Na relação desinteligente, os atores são individualistas, pensam somente em si, mas, na saudável, os partícipes são especialistas em procurar fazer o outro feliz. Na relação doente se cobra muito e se apoia pouco, na saudável se doa muito e se cobra pouco.

Que tipo de casal você forma: saudável ou doente, inteligente ou desinteligente? Casais inteligentes têm mente madura, atenta ao essencial, à grandeza do afeto, à notoriedade do diálogo, ao espetáculo do respeito mútuo; enquanto casais desinteligentes valorizam o trivial, brigam por tolices, dissipam sua energia psíquica com pequenos estímulos estressantes, são rápidos em se acusar e lentos para se abraçar. Você é um especialista em apontar falhas ou em apontar os acertos de quem ama?

Conviver com pessoas é uma das tarefas mais complexas e saturadas da vivência humana. Nada produz tantas alegrias e nada fomenta tantas dores de cabeça. Animais não nos frustram, não nos diminuem, não nos dominam e nem nos excluem; mas as pessoas em quem apostamos, como nosso parceiro, filhos, alunos, amigos, podem invadir a nossa psique e fragmentar nosso sentido existencial, imprimir culpa, fazer chantagens, nos deixar nos sentindo inúteis.

Sem perceber, podemos também traumatizar quem mais amamos. As regras de ouro dos casais saudáveis pertencem à teoria da inteligência socioemocional (multifocal), que utilizei em mais de vinte mil sessões de psicoterapia e consultas psiquiátricas ao longo da minha carreira como profissional. Essas regras pretendem dar um norte, rever rotas, treinar nossas habilidades, reciclar nossas loucuras, refundar alguns alicerces da relação. Mas, as regras não são mágicas. Entretanto, se aplicadas sistematicamente, elas podem ser eficientes. Além disso, as regras são universais, e uma grande parte delas pode e deve ser aplicada por todos os casais, de todas as idades, povos, culturas e nível acadêmico.

Uma relação saudável e inteligente precisa de uma nova agenda, uma estratégia prolongada e vivenciada ao longo de semanas, meses e anos. Mas os resultados podem ser fascinantes. Romper o cárcere da rotina e se abrir às surpresas é ter um romance com a vida.

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