Articulista
Augusto Cury
Inteligência Emocional
Augusto Cury
Psquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor
27/09/2017
Ciúme: Um fantasma remoto
O verdadeiro amor não arde em ciúme, mas é regado à paciência, generosidade e tolerância 

O ciúme é um fantasma emocional tão antigo quanto a própria existência humana. Os israelitas tiveram ataques de ciúme, os filisteus conheceram fortemente seu paladar, os babilônicos beberam fartamente de sua água, os egípcios deitaram em sua tumba. Em sua carta aos gregos de Corinto, o apóstolo Paulo disse que o verdadeiro amor não arde em ciúme, mas é regado à paciência, generosidade e tolerância.

Todos os povos, independentemente da cultura, foram viciados – uns mais, outros menos – em controlar seus pares e esperar retorno excessivo de seus íntimos. Cleópatra, a última rainha da dinastia Ptolomeu que governou o Egito, era uma mulher fascinante, persuasiva e poderosa. Todos se curvavam diante de sua beleza, e, quando abria a boca, encantava a todos com sua inteligência. Antes dos movimentos de libertação da mulher, ela já era livre. Governava a mais charmosa e misteriosa das nações. Ao que tudo indica, falava seis línguas, conhecia filosofia e artes gregas, mas desconhecia as armadilhas da mente. Nada tirava seu ponto de equilíbrio, até que entrou num terreno que não dominava: o amor.

Se tivesse amado um dos seus milhares de súditos, ainda que um general, sua história talvez tivesse sido menos pantanosa, mas tornou-se amante de um homem poderoso, ambicioso e complicado: Júlio César, o grande líder do Império Romano. Mesmo pessoas seguras têm seus limites, e Cleópatra teve os dela. O ciúme que sentia de Júlio César a fez sonhar em dominar todo o Mediterrâneo. Planos ambiciosos tentam compensar as fendas da personalidade.

Todavia, pessoas imbatíveis também se curvam à dor. Depois da morte de Júlio César, Cleópatra cativou Marco Antônio, outro líder romano, um dos três que governaram o império. Encontrou neste novo relacionamento seu ponto nevrálgico mais sensível, mais dolorido. Amou sob o risco de perder.

A poderosa mulher, frágil como qualquer ser humano, insegura como qualquer caminhante, tinha de não se punir, se reinventar, mas não o fez.

Gigantes enfrentam montanhas, mas tropeçam nas pequenas pedras da emoção. Cleópatra tombou quando Marco Antônio foi derrotado. Suicidou-se com uma picada de serpente. Antes de desistir da vida, já não tinha um romance com sua própria história; se abandonou, vendeu sua liberdade a quem amava, um erro dramático nas relações.

Amar não é crime, mas amar outra pessoa sem antes se amar, é. Ter um romance sem ter um caso de amor com sua saúde emocional é se violentar. Com o tempo, percebemos que o ciúme não é o "tempero das relações", mas sim um sinal de que algo está faltando dentro de nós, algo que nos complete e nos permita ser feliz sem a presença de outra pessoa.

Ninguém deveria ter ciúme do outro. Só há um ciúme legítimo: o ciúme de nossa qualidade de vida. Sem ele, é impossível nos proteger. Não há super-heróis no planeta da emoção; somos nossos maiores protetores ou nossos maiores inimigos.

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