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14/12/2017    Por João Felipe Cândido
Jornada sobre duas rodas
Sem auxílio de gps ou mapa impresso, durante 16 dias, morador de alphaville percorreu dez mil quilômetros a bordo de sua moto, o roteiro da aventura incluiu o Deserto da Patagônia, com paisagens de tirar o fôlego, pernoite em um local que assustaria muita gente e um inesperado (e mágico) eclipse solar 
foto: Arquivo Pessoal - Pausa para um selfie em Carretera Los Caracoles, no Chile

A rotina do arquiteto e empresário Otávio Augusto da Silva Munhoz, 36, se divide entre a família e o trabalho como incorporador e construtor. Nas poucas horas livres, dedica-se ao hobby favorito: pilotar sua moto, uma confortável e estilosa BMW R 1200 GS, batizada de “A Gorda”. Com a ajuda do “paitrocínio”, aos 15 anos teve sua primeira moto, uma charmosa 50cc, a popular “cinquentinha”. Desde então, a paixão apenas aumentou. “A partir daí foi só alegria: nenhum acidente grave e cinco motos se passaram em minha vida”, conta.

Já em 2009, Otávio desejava ir de carro até o deserto da Patagônia. Um amigo também queria fazer o trajeto, mas a bordo de uma moto. Anos depois, a dupla viu que estava na hora de colocar o projeto em prática. Por questões de trabalho, porém, seu amigo precisou desistir. Como havia acabado de quitar sua robusta BMW de alto desempenho, não pensou duas vezes em seguir o roteiro sozinho. O trajeto inicial era ainda maior, porém, como iria só, cerca de sete mil quilômetros do roteiro original foram deixados de lado.

Para alcançar o objetivo de passar pela Patagônia argentina e chilena, em março deste ano, organizou todos os detalhes e seguiu viagem. Levou duas malas estanques de cinquenta litros cada. Uma destinada às roupas de todos os climas. “Saí do Brasil em pleno verão, porém, sabia que durante o trajeto enfrentaria as quatro estações”, relata. A outra mala foi usada para equipamentos, cordas, ferramentas, kit de vedar furos em pneus, sleep bag, entre outros acessórios. Hoje, reconhece que levou muitos itens e não usou quase nada. 

Acredite se quiser, mas um dos itens mais imprescindíveis para qualquer viajante, o GPS (ou, em último caso, um mapa impresso), foi deixado em casa. “Sempre acreditei que só conhecemos verdadeiramente o mundo quando ‘nos perdemos’. Sendo assim, optei por não levar GPS ou mapa. Anotei as cidades que eram pontos estratégicos de troca de rodovias e o resto seria perguntando a estranhos mesmo”, surpreende. Começava ali uma das viagens mais inesquecíveis de sua vida.

EXPEDIÇÃO DOS SONHOS

foto: Arquivo pessoal - Caminho dos 7 lagos Andinos, no Chile

Ao longo das próximas semanas, percorreria parte da costa brasileira, com passagens pelo Uruguai, Argentina e Chile. Não havia meta diária, no entanto, acordava às 6h e, na sequência, já estava na estrada. Costumava parar por volta das 19h. Por ser verão, o pôr-do-sol começava pouco depois das 22h. Após rodar o dia todo, ainda sobrava tempo para tomar banho e conhecer um pouco sobre o local onde iria pernoitar. Em algumas cidades da Argentina, a qualidade dos túmulos dos cemitérios, que costumam ficar logo na entrada, são o termômetro do viajante na hora de saber se a estadia será minimamente confortável. “Se houvesse túmulos ricos e vistosos, o centro da cidade ou vilarejo certamente seria bem cuidado e com arquitetura interessante”, revela.  

Sobre os gastos, pelos seus cálculos, o custo médio diário ficava na casa dos cento e setenta reais (entre combustível, alimentação e estadia). Preferia as pousadas simples. Era carnaval na Argentina e Otávio estava num vilarejo colonizado por ingleses, em pleno deserto da Patagônia, chamado Gaiman. Não havia mais hotel ou pousada disponível. Seguir viagem não seria uma boa ideia, pois já estava tarde.  Acabou indo pedir ajuda em um kiosko, espécie de mercearia em que se vende de tudo. Lá, conheceu o proprietário do estabelecimento, que cordialmente cedeu as chaves do apartamento onde os seus pais moravam. Só havia um pequeno detalhe: eles haviam falecido há cinco anos. Ao abrir as portas, percebeu imediatamente que a mobília, roupas de cama, inclusive os sapatos dos velhinhos, ainda estavam lado a lado. Certamente do jeito que haviam deixado. “Era cena de filme. Tudo com muita poeira”. 

A cidade tinha racionamento e, com isso, não havia água na caixa. Munhoz precisou tomar banho de mangueira no quintal da casa. Um verdadeiro luxo em pleno deserto. Na hora de dormir, optou pelo sleep bag. Não estava com coragem de deitar na cama do casal. “Vai que…”, recorda-se, aos risos. Além de ter muitos pernilongos, o local era quente demais. Abrir a janela seria pior, pois lá fora era frio, algo em torno dos sete graus Celsus. Conseguiu ficar até às 4h da manhã. Levantou acampamento e escondeu a chave no local combinado. “Sinceramente, a cada estalo que escutava no apartamento, ficava com a sensação que iria ver o casal de velhinhos a qualquer momento. Fui cruzar o deserto, torcendo para que não faltasse gasolina”.

foto: arquivo pessoal - Foto do eclipse feita durante a cruzada do deserto da Patagônia, na Argentina

MOMENTO MÁGICO
Enquanto cruzava o deserto de seiscentos e oitenta quilômetros, o dia foi ficando escuro. O tempo estava bom, com poucas nuvens e o relógio marcava meio-dia. Ao apontar sua câmera para o sol e tirar uma foto, percebeu que estava em meio a um eclipse solar. “O deserto se parece muito com aqueles visuais do Grand Canyon, com montanhas esculpidas pelo vento. Uma geologia de tirar o fôlego, coroada por um eclipse. Foi o momento mais mágico de toda a viagem”, garante.

foto: arquivo pessoal - Saída do deserto da Patagônia, a caminho da Carretera Austral

PARTIU?
Para quem se inspirou na viagem do Otávio e topa o desafio, ele compartilha algumas dicas: “Faça uma preparação física mínima, pois esse tipo de trajeto exige bastante do corpo, que ficará horas e mais horas conduzindo a moto. Para quem não  faz questão de luxo ou mordomias, não será necessário gastar muito com acomodação. É preciso apenas ter uma condição financeira mínima em espécie para o custeio do combustível e hospedagem, além de coragem e humildade para aceitar os desafios que a viagem proporciona. Nem sempre se tem aquilo que se quer, por isso é necessário abrir mão de algumas escolhas para dar continuidade à jornada. Isso vale não apenas para a viagem. Para o dia a dia também”. Questionado se faria tudo novamente, é enfático: “Farei. Todas as palavras ou fotos não são capazes de explicar tamanha satisfação de dever cumprido. Somos capazes de feitos ditos impossíveis. Basta sonhar, acreditar e agir com prudência, foco e determinação. Estude todas as possibilidades de erros e trace uma estratégia para saná-los. Se tiver medo, vá com medo mesmo que o resultado será ainda mais prazeroso”. 

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